Capítulo 3 - Confissões

Chegamos a casa e Jenny foi a primeira a entrar. Ela estava um pouco ansiosa, hoje, mas, mal entrou, a ansiedade deu lugar à surpresa.

- SURPRESA! – Gritamos, eu e Brandie. David já não nos acompanhava.

- Feliz aniversário, querida – disse-lhe Brandie, abraçando-a.

- Parabéns, Jenny – disse-lhe, beijando-a na face.

- Vocês são malucas – replicou ela, em vez de um simples ‘Obrigado’. – Não era necessário nada disto.

Jenny olhou a sala decorada, e o bolo que tinha em cima da mesa.

- A Lily insistiu – disse Brandie. – E queria convidar a tua mãe, e tudo…

Jenny olhou-a, alarmada. Brandie continuou.

- Mas como a tua mãe está a trabalhar muito longe, já não deu tempo – sorriu, tranquilizando a amiga.

Jenny pareceu ponderar, e depois resignou-se com um suspiro.

- B, sabes que vou ter de sair de casa após hoje…

Brandie baixou a cabeça, triste.

- Passa-se alguma coisa, Jenny? – Questionei, subitamente preocupada.

- Sim, e tu já sabes, Lil. Mas, não estás a associar a memórias passadas.

Tanto eu como Brandie ficámos confusas. Fiz um ligeiro esgar.

- Vamos sentar-nos, sim? – Pediu Jenny, cuidadosamente.

Todas nos sentámos no sofá, e Jenny principiou a história.

- A Brandie já sabe esta história quase toda…

- Quase? – Questionou Brandie, confusa.

- Deram-se uns acontecimentos recentes que a culminaram que não te pude contar.

- Então prossegue – disse eu. Era isto que Jenny andava há muito para me contar.

- Há oito anos atrás, eu e a minha mãe estávamos a ir para casa, à noite. Estávamos a chegar do funeral do meu pai…

Jenny fungou, continuando, depois.

- Estava muito escuro. Para chegar a casa, ambas tínhamos que passar por um beco assustador. Estávamos a ultrapassá-lo, de mãos dadas, quando ouvimos alguém, que parecia estar magoado. O som saía do beco. A minha mãe, sendo o coração mole que é, decidiu ir ver o que se passava, pois podia ser grave. Como não queria deixar-me só, levou-me com ela. Vimos alguém sentado no chão, e aproximámo-nos, pois ele não parecia estar bem.

Clareou então a garganta, e prosseguiu.

- Foi aí que ele nos olhou. Sorria, como se fôssemos um prémio. A minha mãe bem me disse para correr, quando viu a grande faca que ele trazia consigo, mas eu estagnei. Não conseguia mover um só músculo, nem quando ele esfaqueava a minha mãe, sem piedade. Eu chorava, pois era a única coisa que conseguia fazer na altura. Ainda era uma criança, só tinha dez anos, mas ao ver aquela cena, amadureci muito. Vi outro vulto vir na nossa direcção, e, em vez de pedir que nos ajudasse, como qualquer criança faria, pedi que me matasse também, gritando.

Nesse momento, uma memória surgiu, e, à medida que Jenny falava, as imagens irrompiam.

- Em vez disso, ela (pois eu descobri que era uma rapariga) dirigiu-se ao assassino, e quando ele a olhou e tentou atingi-la, ela desviou-se, e, subitamente, estava atrás dele. Atirou-o contra a parede contrária à que se encontrava, e partiu-lhe o pescoço. Sentia-me uma criança de dez anos de novo, e estava assustadíssima. Nesse momento, a rapariga veio à minha frente e murmurou «Desculpa», num tom suave e carinhoso, quase que tentando fazer-me sentir confortável. Eu não entendia porque ela me pedia desculpa, até ver a adaga que ela retirava do bolso. Cambaleei, e caí, sentando-me, traumatizada e assustada. Pensei que ela me ia magoar, mas, em vez disso, ela cortou o seu próprio braço, e deu do seu sangue a beber à minha mãe. Eu não entendia porque ela fazia aquilo, mas, de repente, os cortes da minha mãe saravam-se, e ela começava a respirar de novo. A minha mãe acordou, e a rapariga explicou-lhe o que houvera sucedido, e que a houvera transformado numa… vampira.

Jenny olhou-me, carinhosamente, enquanto Brandie me olhava presunçosamente.

- E assim, Jenny veio viver comigo e contou-me tudo o que se houvera passado. Se não quiseres acreditar, tudo bem – disse Brandie, calmamente.

Eu sabia que a história ainda não tinha terminado, e incitei Jenny a continuar.

- Ela acredita, B – disse ela, a Brandie, continuando depois. – Passamos algum tempo a conversar, e, quando a minha mão me deixou, apenas me disse «Mal tenhas 18 anos, transformar-te-ei, e já poderemos estar juntas, meu anjo», ao qual eu apenas lhe disse…

- «Vou contá-los como se fossem jóias» - disse eu, citando o que ela houvera dito à sua mãe.

Fez-se um silêncio constrangedor, ao qual ninguém se atrevia a culminar, enquanto eu comparava Jenny à menina do beco.

Brandie estava muito confusa em relação ao olhar fixo que eu dava a Jenny.

- Jennifer – disse eu, finalmente

Ela sorriu e lágrimas saltaram dos nossos olhos. Irrompemos num abraço tão necessário como o respirar, e Brandie não entendia porquê.

- Agora, já compreendo – disse eu.

- O quê? – Questionaram elas.

- Porque é que tu, Jenny, andavas tão ansiosa para me contar algo. Todo o teu anseio se resumia a este momento.

- Esperem lá! – Interrompeu Brandie. – Como é que tu sabes isso?

- B, eu não contei isto só porque me apeteceu… Esta é a vampira que salvou a minha mãe – disse Jenny, sorrindo.

Brandie petrificou, chocada. Esperámos até que ela dissesse algo.

- Vivemos com uma vampira, e tu não me dizias? – Questionou Brandie, alarmada.

- Tu sabes que ela não te magoaria, eu contei-te – respondeu Jenny.

Brandie soltou um riso um pouco nervoso.

- Era por isso que andavas tão estranha... Mas, assim, até me sinto culpada. Vais sair de casa só por minha causa – Brandi baixou a cabeça. – Eu é que devia ir-me embora.

 Um sonho que Brandie havia andado a esconder de mim, sobrepôs-se, escapando ao seu controlo. Ela também queria ser vampira. Sabia que tinha a hipótese de beber sangue animal, até encontrar o seu parceiro, e assim, não magoaria ninguém. Eu jurei que cumpriria os seus sonhos, e iria cumpri-los.

- Ninguém tem de sair de casa – disse eu, determinada.

- Como? – Questionou Jenny.

Apesar disso, dirigi-me a Brandie.

- B… já conheces as opções todas, aquilo que podes e não podes fazer, portanto, agora, a decisão é toda tua.

- Que decisão? – Perguntou ela, curiosa.

- Eu posso transformar-te. Queres?

Jenny sonhou com o trio de vampiras que nós seríamos, e na nossa amizade a durar uma eternidade, literalmente.

- Eu… nem sei que dizer, Lil – disse Brandie, confusa. Depois decidiu-se. – Sim, quero – acabou por responder.

Assenti, seriamente e Jenny interrogou-me.

- Nunca pensaste em contar-nos?

- Sim, pensei… Mas… é uma história complicada…

- Podes contar – disse Brandie.

Já que estávamos numa onda de confissões, aproveitei.

- Bem, vou começar pela minha transformação – principiei. – Eu passeava à noite, na praia, chorando. Vi alguém perto, mas nunca pensei que tencionasse vir ao meu encontro.

«- Estás bem? – perguntou-me.

- Sim, óptima – respondi, irónica. – Apenas assassinaram os meus pais perante os meus olhos, e, apesar da descrição perfeita que fizera do agressor, não o julgam por falta de provas. Só queria poder matá-lo, da mesma forma que fez com meus pais. Queria que ele me visse como uma ameaça, e não como uma simples menina de 20 anos assustada. Queria que me vissem como algo mais.

- Eu posso ajudar-te – ofereceu-se ele. Eu não entendia porque ele estava a ser tão simpático comigo, mas não me importei.

- Como me podes ajudar, rapaz?

- Poderia matá-lo por ti, se assim o desejasses – respondeu, prontamente. Um pequeno acesso de fúria atingiu-me.

- Não! – Acalmei-me e continuei. – Obrigado, mas quero ser eu a fazê-lo. Mostrar-lhe a dor que ele também me provocou.

Ele pareceu ponderar sobre a questão. Ficámos em silêncio durante algum tempo, até ele se recordar de algo.

- Como te chamas? – Perguntou, subitamente.

- Lilith… E tu?

- David, muito prazer – respondeu, sorrindo. Nesse momento, foi como se me arrancassem o chão que pisava, sentia que uma grande atracção crescia.

Estivemos a falar sobre coisas bem comuns, e outras que nem por isso. De repente, ele beijou-me, e eu, em vez de fazer o que qualquer rapariga fará, afastá-lo, correspondi. Ele separou os seus lábios dos meus.

- Eu posso ajudar-te a fazê-lo – disse-me, murmurando.

- O quê? Fazer o quê? – Ainda estava aturdida por causa do beijo.

- A concretizar os teus desejos, Lily – disse-me, confiante. – Apenas tens que ingerir um pouco do meu sangue, e tornar-te-ei numa… vampira.

Naquela altura, vampiros não eram apenas mitos. Todos os temiam, pois não conheciam as suas maravilhas. Eu não os temia, mas também nunca me tinha acontecido conhecer um. Estava tão focada em fazer justiça aos meus pais que nem pensei duas vezes.

- Fá-lo-ei – respondi, triunfante.»

Fez-se um silêncio constrangedor na sala.

- Há quanto tempo foi? – Questionou Jenny.

- 300 Anos – respondi, sorrindo. Elas estavam pasmadas. Ri-me um pouco.

- Mas a razão por que não vos contei é outra… foi apenas há 100 anos. Eu vivia com os meus pais adoptivos, e eu tinha um carinho enorme por eles… A nossa família éramos só nós três, e confiávamos totalmente uns nos outros. Então, certo dia, eu decidi que estava na hora de contar-lhes a verdade sobre o meu ser. Como é óbvio, não acreditaram em mim, diziam que eu tinha uma grande imaginação, mas eu tentei convence-los. Então, acharam que eu enlouquecera, e começaram a culpar-se um ao outro pelo sucedido, até se separarem. Eu conseguia ver a tristeza nos seus olhos a cada dia que passava, eles não deviam estar separados, amavam-se demasiado para isso. Tomei uma nova decisão: deixá-los-ia em breve, para que pudessem reconciliar-se, mas, pouco antes de isso acontecer, foram mortos por um vampiro, que me odeia, e agora, também eu o odeio. Mas a culpa foi minha, se não lhes tivesse contado nada disto teria acontecido. Sempre me culpei, e continuarei a culpar, por isso, jurei que nunca mais contaria a ninguém.

Brotou uma lágrima dos meus olhos, sendo, de seguida, acompanhada por muitas outras.

- Desculpa termos feito com que falasses disso, Lil – desculpou-se Jenny.

- Não faz mal, isto fez-me bem. Obrigado, amigas – respondi, com um sorriso a surgir no meio de lágrimas.

Brandie veio abraçar-me, e Jenny acompanhou-a. Deixámo-nos ficar assim durante algum tempo, até olharmos para o relógio, e Jenny nos largar.

- Tenho de ir, queridas – sorriu, e deixou-nos.

Olhei seriamente para Brandie, cessando com as lágrimas.

- Queres mesmo fazê-lo? Sabes que tens a escolha de continuar humana…

- Sim, quero. Agora? – Questionou ela.

- Agora. Só demora uns segundinhos, e não sentirás nada.

Fui buscar a adaga que já não usava há 8 anos, e fiz um pequeno corte no braço. Estiquei-o para Brandie, e ela sugou o sangue prontamente. Desmaiou, e, quando acordou, um novo brilho preenchia o seu olhar cinza.

- Obrigado, Lil – disse sorrindo. Depois, fez um trejeito. – Tenho… sede – constatou.

Ri-me baixinho, calmamente.

- Anda, vamos caçar – disse-lhe.

 

Saímos, na altura em que a Lua iluminava o céu negro da noite.