Capítulo 5 - Revelações
Mais um dia nos esperava, mas, desta vez, era diferente. Era o primeiro dia que Jenny e Brandie passavam na escola… como vampiras. Sabia o quanto lhes iria custar, mas sabia também que David me ajudaria a cuidar delas.
Chegámos à escola quando esta estava praticamente vazia, para eu lhes poder falar à vontade.
- Hoje, é o primeiro dia da eternidade, para vocês – comecei. – Vai custar, sim, mas eu e David estaremos aqui para vos ajudar. Por falar nisso, ele deve estar mesmo a chegar, portanto, tenham calma, pois eu ainda não lhe contei. Ele sabe da história da tua mãe (claro que sabe!), mas não sabe que eras tu... Mas tenho a certeza que ele compreenderá.
Elas estavam muito tensas, pelo que suspirei.
- Relaxem, meninas. Não será assim tão doloroso. Eu tenho algumas tendências a exagerar, tenham calma.
Elas relaxaram, mas, no entanto, eu é que acabei por ficar tensa.
David caminhava na nossa direcção. Ao longo do último século em que não houvera visto David, não me houvera esquecido nem um pouco da sua imagem. A sua pele morena sempre me fascinara, e, em comparação com o laranja rosado das paredes exteriores, dava-lhe um brilho, mesmo sem que o sol brilhasse. Os seus olhos cor de mel olhavam-me carinhosamente, mesmo estando a alguns metros de mim. O seu cabelo loiro (do tom exacto do cabelo de Brandie) espetado sem muito esforço, balançava ao ritmo seu passo, e com o vento que soprava, calmamente. O seu corpo de Deus Grego era irresistível, mas o seu rosto era o seu maior atributo: os seus lábios abriam-se agora, formando o meu sorriso predilecto, deixando as maças do rosto salientes e belíssimas. Os seus dentes perfeitos e tão brancos como a neve tinham agora um brilho difuso, mesmo debaixo das nuvens que ameaçavam uma precipitação futura.
Sabia que David não me estava destinado, portanto, interrompi o olhar amoroso que lhe lançava, ciente de que Brandie me olhava com algum ciúme.
David aproximou-se.
- Bom dia, beldades – disse, sorrindo. Brandie lançou-lhe um sorriso reluzente.
Brandie era igualmente bela a Jennifer, apesar das diferenças óbvias.
Brandie, de pele ruiva e olhos verdes, cor de relva pura, tinha um rosto quadrado, e o seu cabelo loiro, da cor do sol, era completamente liso e formado por uma franja desfiada, dando-lhe pelo queixo. Era linda, alta e tinha um corpo muito feminino, com proporções perfeitas. Neste momento, tinha um olhar confuso, ao ver que eu a fitava. Apressei-me a desviar o olhar, para fitar Jenny. Esta, ao contrário de Brandie, tinha o cabelo comprido e ondulado, até ao meio das suas costas, de um tom ruivo bem marcante, e o seu rosto assumia um tom rosado, tornando-a imensamente bela quando as maças do rosto enrubesciam devido ao rubor. Os seus olhos eram de um castanho intenso e muito observadores, e alegres. Tal como Brandie, as suas proporções eram perfeitas, apesar de não ser tão alta como ela. As diferenças entre nós três eram abismais. Eu, contrastando com o tom claro da pele de Brandie e Jenny, tinha uma pele bronzeada, um pouco mais morena que David, até. Os meus olhos eram de um tom cinzento brilhante, podendo dizer-se que era quase prateado. Tinha uma franja irregular, no meu cabelo dourado, que formava caracóis perfeitos até à cintura, que agora esvoaçava devido ao vento. Tal como Jenny e Brandie, tinha proporções perfeitas, e, tal como Jenny, não era tão alta como Brandie, que era da altura de David, sendo eu e Jenny mais baixas do que ambos.
Estava tão abstraída a comparar as nossas imagens corporais que nem reparei que David me fitava, à espera de uma resposta. Quando, finalmente, olhei para ele, ele assustou-se com a minha expressão, que estava um pouco feroz.
- Precisamos falar – declarei.
- O que é que eu fiz? – Perguntou, assustado. Soltei uma gargalhada ríspida.
- Tu, nada. Eu é que fiz algo que preciso que saibas.
David ergueu o sobrolho, visivelmente desconfiado. De seguida, puxou-me levemente, para eu o acompanhar.
- Não vale a pena – disse eu, firmemente.
- Se não vale a pena, então podes começar – disse ele, directamente.
Respirei fundo, para esquecer os nervos, e olhei-o nos olhos.
- Por favor, não me mates – pedi. – David, lembraste daquela noite, há oito anos, em que eu…
- Estás maluca? – Interrompeu-me ele, murmurando. – Claro que me lembro, Lily! Mas porque estás a falar disso agora? E à frente delas? – Criticou, sussurrando.
- David, tem calma com ela – pediu Jenny. Nesse momento, David calou-a com o olhar, pelo que Jenny baixou os olhos.
- David, ouve-me – pedi, virando-lhe o rosto para mim, – era ela. Era a Jenny. Naquela noite, era ela a Jennifer, de apenas dez anos. Ela fez dezoito anos ontem. Ela é uma de nós agora – expliquei, com as palavras apressadas a saírem mais ferozes do que o que eu desejava. David olhou-me, boquiaberto.
- Não pode ser – expirou. – Ela não cheira a uma de nós – replicou, de dentes cerrados.
Eu iria ripostar, mas aquele comentário apanhou-me de surpresa. De repente, associei tudo.
- David, ela foi transformada por um de nós, mas ele não é igual a nós. É canadiano. Eles têm odor humano, mas têm que…
David tapou-me a boca, subitamente.
- Cuidado, a Brandie ainda nos ouve, sabes? – Sussurrou.
Suspirei, e tirei a sua mão da minha boca.
- E continuaria a ouvir mesmo que estivéssemos na outra ponta do parque de estacionamento. Eu transformei-a – informei-o. De seguida, baixei a cabeça, à espera dos impropérios que David me dirigiria. No entanto, David abraçou-me.
- Minha tontinha, pensaste que eu ia ficar zangado contigo, era? – Perguntou, divertido.
Levantei os olhos para o seu rosto.
- Sinceramente, pensei. Porque disseste-me uma vez para só transformar alguém em caso de vida ou de morte, e a Brandie não poderia estar mais segura no momento em que eu… - Fui interrompida pela gargalhada de David.
- E achas que não era um caso de vida ou de morte ser a única humana numa casa onde habitavam duas vampiras? Para além disso, foi uma decisão dela, certo?
Acenei com a cabeça, incapaz de falar. Estava muito surpreendida com ele. Estava mesmo aturdida pela sua atitude.
Enquanto pensava no que se sucedera, David puxou o meu queixo e beijou-me. Acordei dos meus pensamentos, e afastei-me cuidadosamente.
«David, a Brandie gosta de ti. Não façamos isto em frente dela, sim? Não quero magoá-la» pensei, projectando o meu pensamento através das palmas das mãos para David. Mal ele ouviu, um brilho involuntário iluminou os seus olhos. Nunca tinha visto aquilo acontecer. «Hum, está bem» pensou, «mas então temos que arranjar algum tempo a sós», sorriu-me.
Acenei levemente com a cabeça.
David largou-me e ambos olhámos Jenny.
- Onde está a Brandie? – Questionei, confusa.
- Saiu daqui quando vocês se beijaram – respondeu-me, confusa também.
Caramba! Eu não queria vê-la magoada assim. Olhei rapidamente para David, e de seguida, perguntei-lhe.
- Está algum humano por perto? – Perguntei.
- Não – respondeu.
Cheirei o ar, para perceber para onde Brandie se dirigia. O seu odor a água do mar com rosas dirigia-se para a minha direita, pelo que corri ao seu encontro. Quando encontrei Brandie, ela chorava, agarrada aos seus joelhos.
- Brandie, desculpa – disse, envergonhada. – Eu sei o que sentes por ele e já lhe pedi que estes comportamentos cessassem. Por favor, perdoa-me, eu não queria magoar-te.
Sentei-me ao seu lado, com uma lágrima a percorrer-me a face.
- Tu não tens culpa – disse ela, num tom grave, devido ao choro, - vocês amam-se, e eu só tenho que compreender isso – podia perceber pelo seu tom de voz que ela se sentia culpada pelo que sucedera.
- Uf! Brandie, eu não quero magoar-te. Sabes, eu sei que tu gostavas que o David fosse o teu parceiro… Nunca se sabe o que pode acontecer – balbuciei.
Brandie levantou a cabeça.
- Um vampiro pode ter duas parceiras? – Perguntou, mais animada. Revirei os olhos perante a sua conclusão.
- Brandie, o David não é meu parceiro. Nós apenas estamos… hum… atraídos um pelo outro. Mal saibamos quem são os nossos parceiros, a nossa atracção desaparecerá. Por vezes, acontece – expliquei.
Brandie olhava-me, e eu via uma ténue esperança no seu olhar. Sorri-lhe.
- Pensa, já falta menos de um mês para saberes. Conta bem estes dias – encorajei-a, ainda sorrindo.
Embora aquilo que estava a dizer-lhe me magoasse, não o demonstrei. Não deixaria ninguém saber o quanto me magoaria quando David encontrasse a sua Rainha. Bem no fundo de mim, eu queria que ele nunca a encontrasse – queria que ele ficasse para sempre comigo –, era egoísta o suficiente para isso. Mas na superfície, eu sabia que ele poderia ser muito mais feliz ao lado da sua parceira. Eu sabia-o, mas, mesmo assim, queria que ele ficasse comigo. Era uma pessoa monstruosa. Também tinha medo que a sua parceira não fosse boa o suficiente para ele, por isso, ficaria extasiada se Brandie estivesse destinada a David. Sorri ao pensar nessa hipótese. Pode ser que lhe tenham reservado esse belo destino.
- Bem, daqui a pouco, o pessoal começa a chegar. Que tal sairmos daqui? – Sugeri.
- Vamos, a Jenny e o David devem estar preocupados – eu via a maneira como os seus olhos brilhavam quando ela referia o nome de David. Gargalhei.
Levantámo-nos, ainda a rir, e seguimos até ao parque de estacionamento, sempre a gargalhar sobre coisas aleatórias que dizíamos. Chegámos junto a David e Jenny, e eles mostraram-se, obviamente, confusos perante a cumplicidade existente entre mim e Brandie. Limitámo-nos a rir, perante a confusão patente nos seus rostos.
- Está tudo bem – explicou Brandie. – Apenas uma confusão da minha parte. Já passou.
Brandie deu-me o seu braço, como se fosse um pai ao levar uma filha ao altar no dia do seu casamento, e disse:
- Devemos? – Apontando para o edifício que se encontrava à nossa frente, onde já alguns alunos caminhavam e conversavam. Caminhámos para dentro do edifício escolar, e continuámos a nossa conversa.
- Hum, posso fazer-te uma pergunta um pouco indiscreta? – Perguntou-me ela, um pouco tímida.
- Claro que sim, B – respondi-lhe. Questionei-me sobre o que a poderia deixar assim.
- Bem, eu gostava de saber… como foi, para ti.
- Como foi o quê? – Estava realmente confusa.
- O primeiro dia… - Respondeu-me, deixando-me perceber ao que se referia. Resfoleguei.
- Na verdade, foi muito normal. Tinha que fingir que nada se passava. Naquela altura, pessoas como nós não era apenas um mito. Era aterrorizante vê-los a falar sobre… nós, não sabendo que eu era um dos monstros aterradores, como eles nos descreviam. No início, eu parecia muito normal, mas depois, comecei a indignar-me com aqueles diálogos, e comecei a demonstrar-me um pouco… irritada quando falavam de nós assim. Eu já conhecia mais da minha espécie, e a grande maioria era como eu: fazia parte da sociedade sem ser reconhecido. Depois, havia os que defendiam que nos deveríamos impor perante os humanos. Que devíamos atacá-los, para que nos respeitassem. No entanto, nunca levaram a sua avante. Nós protegíamos os humanos, para que não fôssemos descobertos, o que levou a que eles, para não nos enfrentarem, se juntassem a nós. Apenas uma ínfima parte não se aliou ao nosso poderoso… clã, mas abandonaram as nossas terras, deixando-nos em paz permanente. Foi aí que os humanos nos deixaram em paz. Esqueceram-nos. Muitos de nós saíram daquela terra por essa altura, como eu e David, para que não pudessem desconfiar de nós. Partimos, e, desde aí, continuamos a viajar, antes que se apercebam do que nós somos. Mas, resumindo, é muito normal. Tirando o pequeno ardor na garganta. Mas, quanto menos pensares nisso, melhor. Habituas-te. Ou melhor, ambas se habituam – sorri.
Brandie e Jenny sorriram-me em resposta, enquanto David caminhava ao lado de Brandie, em silêncio. Conhecia perfeitamente aquela expressão do seu rosto. Lábio cerrado, formando uma linha recta perfeita, testa enrugada. Ele pensava em algo. Muito profundamente. Não fui a única a reparar na sua expressão.
- O que se passa? – Questionou Jenny, baixinho.
David inspirou profundamente, e expirou.
- Essas recordações… Hum, outros tempos – disse, por fim, sorrindo.
Eu sabia o que lhe lembrava. O tempo em que eu e ele achávamos que éramos parceiros. Sorri, perante a memória.
Continuávamos a caminhar, ao longo do corredor, quando ouvimos alguém queixar-se.
- Ai! Bolas! – Dizia um rapaz pequeno, observando o corte ensanguentado que tinha no pulso. – Caramba! Já sabia! Quem me manda a mim comprar estes relógios? – Barafustou.
Um brilho percorreu o olhar de Brandie e Jenny, ao tempo que observavam o pequeno rapaz limpar o sangue com um lenço. Senti Brandie largar-me, e Jenny a arregaçar o lábio.
- Agarra a Brandie – sussurrei, alarmada, a David. Ele apanhou Brandie quando ela se preparava para saltar. Puxei Jenny para cima, pois ela começava a baixar-se. Ambas rosnavam perante o nosso abraço férreo.
- Chuu – disse David. – Calma… Vocês não querem denunciar-nos – sussurrou. – Controlem-se – exclamou, num murmúrio imperativo.
Sempre que ele usava aquele tom, conseguia o que queria. Ambas se endireitaram, e o brilho dos seus olhos desapareceu. Ninguém reparou neste nosso pequeno espectáculo, que demorou apenas dois ou três segundos.
- Agora, vamos apanhar algum ar – disse eu. – Também preciso de sair daqui – murmurei. David sabia como estas situações me afectavam, e olhou-me, penoso. Apenas captei o seu olhar na minha excelente visão periférica. Ainda observava o pequeno rapaz.
- Oh, olá Vivianne – disse ele. – Não te aproximes muito, cortei-me – balbuciou, corando.
- Deixa-me ver – pediu ela, sorrindo. – Hum… - Pegou no pulso do pequeno rapaz e beijou o seu corte, pelo que me pareceu. Um segundo depois, retirou os lábios do corte, e este já não sangrava.
- O.. obrigado – sussurrou o rapaz, surpreendido.
Aquilo não me parecia correcto. Ela era uma rapariga estranha, sem dúvida. Provavelmente era sua namorada… Talvez. Ignorei-os, e continuei em frente. Olhei para David, e vi que tanto ele, como Brandie e Jenny também tinham assistido.
- Hum, estranho – disse David, num volume de voz que nenhum humano ouviria.
Limitei-me a revirar os olhos. Estávamos a chegar à saída, quando a campainha soou.
- Querem faltar ao primeiro tempo? – Perguntei. – Nós ficaríamos convosco.
- Não. Temos que parecer normais, e é isso que vamos fazer. Já passou – respondeu Jenny, sorrindo.
Era a primeira aula da manhã, a única que eu não tinha com uma delas. Fiquei satisfeita por David ter aula com ambas, neste tempo. Acompanhei-os à sala, e de seguida, dirigi-me à minha sala. Vivianne, a rapariga que houvéramos catalogado de «estranha» há pouco tempo, tinha aula comigo, agora. Nunca tinha reparado nela, apesar de ela se sentar na mesma carteira que eu. Ainda pensei em perguntar-lhe o que tinha sido aquilo de manhã, mas depois desisti da ideia. Não tinha nada a ver com isso, embora uma parte da minha mente a considerasse perigosa. «Pateta», pensei.
Ela era uma rapariga bonita. Não tão bonita como Jenny ou Brandie, mas era bonita à sua maneira. Tinha um cabelo loiro claro curto, justo ao rosto, olhos azuis esbatidos e pele clara, muito pálida. O seu corpo tinha as proporções um pouco exageradas. O seu busto era um pouco grande demais, comparado com a sua cintura. Não que eu estivesse a apreciá-la, mas podia vê-lo nos sonhos de todos os rapazes da minha aula. Os que se encontravam à nossa frente viravam-se inevitavelmente para trás para falar com ela, não se importando com a professora que se encontrava à frente da sala. Por vezes, alguns olhavam-me e comparavam-me com ela, acabando por concluir que eu parecia demasiado… trapalhona. Era esta a palavra que usavam. Tinham um vocabulário tão inculto que me dava pena. Alguns ainda me achavam descuidada. Como se alguma vez me tivessem visto a caminhar! Se a professora me chamasse para o quadro, eles veriam.
- Menina Seteara, importava-se de vir ao quadro resolver este exercício, por favor – pediu a professora, como se tivesse ouvido cada um dos meus pensamentos. Revirei os olhos.
- Claro – acedi, educadamente.
Levantei o rosto do caderno, podendo observar todos os alunos rapazes a fitaram-me, curiosos. As raparigas olhavam-me com algum desdém. Alguns rapazes tinham partilhado a sua opinião sobre mim. Eles criticavam demasiado as pessoas, mesmo antes de as conhecerem. Levantei-me da cadeira do laboratório, saltando, literalmente. Caminhei normalmente, e via todos embasbacados perante a graciosidade do meu andar. Sorri. Quando cheguei ao quadro, podia ouvir a sua respiração alterar-se devido à surpresa, ao verem a minha caligrafia, perfeita e bonita, em contraste com a da professora, que era um pouco desengonçada. Não consegui evitar o sorriso que me preencheu o rosto, quando me virei para voltar para o meu lugar, ao vê-los a admirarem-me. Pareciam hipnotizados pelo meu sorriso. Impressionavam-se com pouco: este não era nem um décimo do meu sorriso mais deslumbrante.
Vivianne não parecia apreciar os olhares de adoração, na verdadeira acepção da palavra, que os meus colegas me lançavam. Olhava-me ferozmente, enquanto eu me sentava, e eu deixei de sorrir. Ela invejava-me, podia senti-lo a emanar da sua pele. Mal os meus colegas viram a sua expressão feroz, esqueceram o meu pequeno show e concentraram-se de novo nela. Alguns lançavam-me olhares de aviso, enquanto eu retribuía o olhar de Vivianne, com uma ferocidade inexplicável a assomar-me o espírito.
- Tem cuidado – murmurou-me um dos meus colegas. – Ela não é o que parece.
Pouco me importei com o seu conselho; estava demasiado feroz para lhe responder num tom calmo. Sentia a vontade de dilacerar o pequeno sorriso que se formava no rosto de Vivianne a sair do controlo, portanto, desviei o olhar. Vivianne sorriu, presunçosamente, como se me tivesse assustado.
- É para os novatos aprenderem a não se meter comigo – disse, num tom alegre. Como se tivesse ganho uma taça. Não consegui controlar-me.
- Acredita que já enfrentei coisas mais assustadoras que tu – sibilei.
Há pouco não tinha contado a Brandie e Jenny, não queria assustá-las, mas quando se deu a revolta vampírica do meu tempo, nós tínhamos mesmo combatido alguns da nossa espécie. Que eram, sem sombra de dúvida, mais assustadores que esta humana indefesa.
- Ah! – Riu-se ela, sonoramente. – Definitivamente, não me conheces – disse ela, num tom jocoso.
- Nem tu a mim – ameacei, sem tal intenção de o fazer.
A campainha soou de novo, e eu apressei-me a sair, não querendo ceder à tentação de saltar para a sua garganta.
Já me encontrava muito próxima de David, Jenny e Brandie, quando a ouvi chamar-me.
- Hei! Estás com medo de mim? Para quem já tinha enfrentado coisas mais assustadoras que eu, foi-se embora muito depressa – gritava Vivianne, embora eu a ouvisse perfeitamente se ela falasse no seu tom de voz normal.
Via na cara de David, Jenny e Brandie que estavam muito confusos. Já me encontrava junto deles, quando me virei para ripostar. Foi aí que vi que ela não estava sozinha: todas as pessoas que estiveram na minha aula vinham atrás dela, como se fossem carneirinhos a seguir o seu pastor.
- Não me subestimes, rapariga – ameacei, desta vez intencionalmente. David colocou uma mão no meu braço, tentando pôr-se a par dos acontecimentos.
- Sabes, Lilith, não há por aí nada mais assustador, ou mais perigoso que eu, portanto, aconselho-te a ti, a não me subestimares – respondeu-me Vivianne.
- Pois, claro – respondi, desinteressada. Nesse momento, senti-me presa por três mãos. Brandie, Jenny e David seguravam-me, tentando refrear-me da fúria patente na minha voz. Revirei os olhos. Quando voltei a fitar Vivianne, esta estava agachada, como se fosse uma vampira, pronta a atacar. Saltou na minha direcção, e eu desvie-me, arrastando o meu grupo de amigos comigo. Vivianne rosnava-me.
- Sabes, todos pensavam que vampiros não existem, aqui na escola. Mas eu consegui provar o contrário – disse Vivianne, entre dentes. Senti os três vampiros que me agarravam a petrificarem, e a soltarem-me. Então, os quatro agachámo-nos, e rosnámos em uníssono.
- Perfeito – sibilou David. Vivianne mostrou-se confusa perante a sua afirmação, pelo que resfoleguei. Na verdade, todos se mostraram.
- Querida, não sei para que estás assim, mais os teus amiguinhos. Vocês não me assustam – disse Vivianne, gozando.
- Talvez devesses estar assustada – murmurou Brandie.
- Receosa. Devias estar cheia de medo – disse Jenny, mais alto.
Sorri, mostrando os meus dentes num sorriso ameaçador.
- Sabes, existem mais da nossa espécie do que julgas. E pelos vistos, meteste-te com os piores – rosnei. Nesse momento, Vivianne foi inundada por uma onde de compreensão, e ela retesou-se. Não me desviei nem um milímetro, quando ela se moveu à minha frente, apenas para demonstrar a sua grande velocidade, correndo à nossa volta.
- Minha linda, isso não me assusta – disse. – Agora, podes largar o rapaz, que ele não tem culpa da tua falta de sorte – sibilei, sorrindo.
Vivianne rosnou atrás de mim, e eu ouvi o coração do rapaz que ela houvera agarrado a bater descompassado, quando ela o largava.
- Já que és da minha – e salientou a palavra – espécie, porque não mo mostras? Apanha-me, se puderes – gozou-me ela, lançando-se numa corrida pelo corredor. Antes de ela chegar sequer perto das primeiras salas, eu apareci à sua frente e apenas estendi a mão, levando-a a recuar, empurrada por mim, para o sítio onde me havia desafiado. Estava sentada no chão, como se estivesse na praia, mas rosnava-me. Ri-me enquanto corria para a sua frente, agarrando-a pela camisola, mas mantendo-a sentada.
- Eu avisei-te que já havia enfrentado coisas mais atemorizantes que tu – sibilei. – Não estava a brincar, sabes?
Ela olhava-me com um brilho perverso no olhar.
- Sabes quão velha eu sou, querida? – Perguntou-me, retoricamente. – O dobro da tua idade. Eu tenho um século de experiência – galanteou-se ela.
Ri-me. Claro que ela iria presumir que eu tinha apenas 50 anos. Nos 50 anos de um vampiro, este ganhava forças incríveis, que desapareciam mal fizesse 51. Ninguém entendia o porquê, mas não ousavam contestar algum vampiro de 50 anos. Gargalhei, largando Vivianne e sentando-me no chão, perdida de riso. Vi que David se ria, tanto quanto eu, e virei-me na sua direcção.
- Ah! – Dizia David. – Estás um pouco longe da verdade – continuou David.
Eu tinha uma força fora de comum para um vampiro, e adicionando isso à velocidade extraordinária que todos os vampiros me houveram visto correr, presumiram que eu deveria ter catalisado a força que possuía aos 50 anos, e mantido sempre. No início, era um pouco estranho, mas passado algum tempo já estava habituada.
Recompus-me para poder responder devidamente a Vivianne.
- Então, hum, tens 100 anos, ah? Parabéns, novata. – Não consegui conter uma pequena gargalhada.
- Novata? – Replicou Vivianne com um trejeito. – Tenho o dobro da tua idade, respeita-me, se faz favor. – Ri-me de novo.
- Não, minha querida – respondi, num tom sério. – Tens um terço da minha idade – revelei, com alguma vaidade.
Vivianne fitava-me, boquiaberta. Continuei o meu discurso ameaçador.
- Tenho muito mais experiência que tu, já vivi mais que tu, conheci mais que tu, e tenho muitos amigos por todo o mundo. Tenho a certeza que muitos deles não se importavam de testemunhar este facto – sibilei.
- Impossível – murmurou ela, de olhos arregalados. – Impossível! – Gritou, como se houvesse visto um fantasma, e saiu do corredor a correr.
Ainda pensei em segui-la, mas ela já tinha sofrido muito por um dia. Encolhi os ombros uma vez, respirando fundo, e, de seguida, levantei-me e ladeei David. Ele, Brandie e Jenny olhavam para o local onde ela houvera desaparecido, tal como todos os alunos que se encontravam no corredor. Revirei os olhos.
- Ela deve estar apenas assustada – disse, não dando importância ao facto.
A campainha soou de novo, e todos os humanos se sobressaltaram, ao ouvi-la. De seguida, olharam-me, perplexos, para depois passarem a adorar-me, como faziam com Vivianne. Via alguns a dirigir-se para mim, a fim de me oferecerem ajuda, ou qualquer outra coisa, e só tive tempo para dizer, num murmúrio:
- Vamos embora, já!
De seguida, arrastei David, Brandie e Jenny comigo, até ao local onde teria a próxima aula.