Capítulo 1 - O Início

- Lily… Lily!

- Sim…?

- Estás a dormir, ou quê?

- Distrai-me, ‘tá, Brandie? É esse o teu nome, não é? – Perguntei-lhe.

- Uh, Uh. Agora vê se acordas, que este ‘stôr não perdoa uma – disse-me ela.

Assenti, sem mais conversa.

Brandie era a minha companheira do lado em História, e uma das minhas colegas de casa.

Jenny, a minha outra colega, teria Inglês comigo de seguida.

O liceu Winston de Churchill até era um sítio… porreiro (este não era o meu vocabulário favorito), em comparação com as outras escolas. Apesar de as aulas continuarem a ser aborrecidas.

Voltei ao que estava a recordar antes de Brandie me interromper.

Voltei a recordar o dia da minha… hum… mudança.

- Senhorita Seteara, importava-se de prestar um pouco mais de atenção ao que lhe digo? – Dirigiu-se, a mim, o professor.

- Claro… Porque não? – Disse-lhe, sarcástica.

O professor clareou a garganta e fez um tom ameaçador.

- Comporte-se. Tenho idade para ser seu pai.

Detestava que falassem dos meus pais.

- Se o senhor fosse meu pai, não estaria aqui, com certeza – disse-lhe, num tom grave, e assustador.

O professor tomou aquilo como uma ameaça. Todos me olhavam.

 - Você! Vem comigo ao Director! Já! – Gritou-me.

Suspirei e levantei-me, mais calma. Este professor era irritadiço.

Chegamos à sala do Director. O professor contou-lhe a história exactamente como ela se houvera passado, o que me surpreendeu.

- Ela ameaçou-me, Sr. Director – disse ele.

Revirei os meus olhos azuis.

- Apenas constatei um facto real – disse eu, desinteressada.

- Qual facto, que me mataria se eu fosse seu pai? – Replicou.

- Não, professor. Que sou órfã. Se tivesse tido a decência de olhar para a minha ficha biográfica, teria evitado tocar nesse assunto em particular.

O professor clareou de novo a garganta. Fez-se um breve silêncio.

- Penso que lhe devo um pedido de desculpas – disse-me o professor.

- Desculpas aceites. Agora, podemos voltar à sala?

Nesse momento, a campainha soou.

- Na realidade, penso que agora a menina vai para o intervalo – disse-me o Director.

Assenti e saí. Fui à sala apenas para ir ter com Brandie.

- Bem, bem! O que foi aquilo? – Questionou ela.

- Disse o que não devia, ouviu o que não gostava – respondi, indiferente.

Jenny chegou.

- Então, como correu a aula? – Perguntou.

- Lindamente – respondemos, Brandie e eu, em simultâneo. Rimo-nos.

- O que se passou, meninas?

- Apenas eu, que tive uma pequena desavença com o professor. Ameacei-o de morte – respondi, sarcástica.

- Falou deles, não foi?

Acenei positivamente com a cabeça.

- Deixa lá. Se o ‘stôr de Inglês for o mesmo do meu ano anterior, vai ser muito melhor!

Jenny descreveu-me detalhadamente as aulas dele, e pareceu-me que até iria gostar.

Era a minha última aula. O professor era o que Jenny indicara, portanto, não fizemos nada nesta aula.

A aula acabou num igual alvoroço ao que começou. Fui para a cantina, onde era obrigatório todos almoçarmos e tirei o meu tabuleiro. Chegada ao lugar, fiz um trejeito.

- Não gostas da comida? – Questionou Jenny.

- Nem por isso – menti.

Ela não pareceu acreditar, mas não disse nada.

- Não é boa ideia levar assim o tabuleiro – recomendou Brandie.

- E então porquê?

- És capaz de ficar por um belo mês de castigo.

- Não me interessa.

Levantei-me e fui pousar o tabuleiro.

- Oh menina, não se come? – Perguntou a cozinheira.

- Não gosto – respondi, prontamente.

- Pois bem, então. Vai acompanhar-me ao Director.

- À vontade.

Fomos, e até a próxima Segunda-Feira teria de ficar a lavar a loiça na cantina. Perfeito!

Voltei para junto de Brandie e Jenny.

Um rapaz da minha aula de História passou.

- Duas vezes num dia é obra, doçura – disse-me ele.

- Este doce não é para a tua boca, criança – respondi.

Eu, Brandie e Jenny rimo-nos. Só as conhecia desde ontem, mas já nos dávamos lindamente! Talvez… talvez pudesse contar-lhes…. Não. Não me permitiria ter tal pensamento. Quando contei a alguém antes, o resultado fora terrível…

- Hei, Lily! Ouviste-me?

- Sim, claro. Só fiquei uma semana de castigo. O Director disse que era por ser nova cá na escola – respondi, distraída.

Tinha saudades de David. Eu sabia que a nossa atracção culminaria quando encontrássemos o nosso parceiro, ou parceira, no seu caso. Até agora, ainda não tínhamos encontrado a pessoa certa. Ou poderíamos já ter encontrado, e não sabíamos. Esta patetice de demorar um mês para sabermos é mesmo má. Deixa-me muito ansiosa após conhecer algum rapaz.

- Lil, vens para casa ou tens mais aulas? – Questionou Jenny.

- Vou com vocês, claro. Mas podemos passar na papelaria, primeiro? Preciso comprar uma caneta, a minha partiu na aula de História – disse-lhe.

Rimo-nos, perante a cena.

Eu sabia que elas eram boas raparigas. Os sonhos delas eram diferentes dos das outras raparigas: as outras raparigas queriam ser reconhecidas pela roupa que usavam, pelo corpo, pelo cabelo, qualquer coisa que elas pudessem mostrar do corpo, mesmo que não fossem tão bonitas quanto isso; mas Jenny e Brandie não, apesar de serem das mais belas, senão as mais bonitas, da escola, elas queriam ser reconhecidas pelo seu talento. Ambas tinham um talento nato para dança, e eu haveria de conseguir realizar todos os seus sonhos, pois elas mereciam. Este seria já esta semana. Quinta-Feira, provavelmente. Mudaria o tempo, para algo quente, mas nublado, sem perigo de chuva. Assim, poderíamos levar algumas roupas mais provocadoras que estes Jeans largos e t-shirts básicas, que usávamos agora. Seria fantástico.

Chegamos à papelaria e eu sorria perante o meu pensamento. Jenny olhava-me, desconfiada, enquanto Brandie também sorria.

Já tinha uma caneta, e saiamos da papelaria. Pareceu-me que Brandie ia dizer algo importante, por isso pus-me atenta ao que ela dizia.

- Sabem o que a minha tia da secretaria me disse hoje? – Começou.

- O quê? – Perguntei, interessada.

- Que amanhã iríamos receber um novo aluno na escola. E vai ficar na vossa aula de Inglês. Ela disse-me que ele era um gato! Mal o vir, amanhã, vou reconhecê-lo, de certeza! Sei sempre quem são os novos alunos – sorriu. Afinal não era nada importante. Estranho, não costumava enganar-me nestas coisas.

Brandie era muito tagarela, mas não era aborrecida. Divertia-me imenso com o que ela dizia. Já Jenny era muito reservada, cheia de mistérios. Ela tinha algo que queria dizer-me, mas que guardava para si. Mas eu sabia que ela iria contar-me, por isso, estava bem.

Chegamos a casa e ficamos a conversar. Brandie fez o jantar e, por causa, do pontapé que Jenny lhe deu, não disse nada de eu não ter comido.

Jogámos um pouco do seu jogo favorita, e depois fomos dormir, supostamente.

 

Mais uma vez, eu saí às escondidas.