Capítulo 10 - O Final
Respiramos fundo uma última vez, e levantamo-nos, sincronizados. Inconscientemente, o conselho ocupou posições definidas, à minha volta. Leonard estava à minha direita, ainda com a sua mão na minha, com Brandie e David a ladearem-no, assim como Adolphe. Sadie, Shirlei, Cassidy e Melvino encontravam-se à minha esquerda. Avançamos, e, quando saímos, o choque preencheu-me. Não que eles fossem muitos, porque não eram, eram apenas nove, como nós. No entanto, eu fiquei chocada foi por ver quem vinha na posição de líder, como eu ia.
- Vivianne – disse, odiosa.
- Lilith – respondeu-me, numa falsa cortesia. Semicerrei os olhos.
David e Brandie conheciam-na também, do dia em que eu e ela quase tínhamos lutado, em frente a 546 inocentes colegas nossos. Olhei-os de esguelha, e vi-os tensos, a conterem-se, pelo que vi nos seus pensamentos. Pude ver através dos pensamentos de Brandie a negritude que ela via em Londres. Uf, aquilo dava-me dores de cabeça, pelo que deixei a sua mente, e concentrei-me no que se encontrava à nossa frente. Procurei Russell e Jenny, encontrando-os em frente a David e Brandie. Brandie semicerrou os olhos, ameaçadoramente a Jenny. Percebi que a sua empatia com ela tinha chegado ao fim, o que me deixou aliviada. Não que eu duvidasse de Brandie, mas tinha algum medo que ela cedesse à pena por aquela amiga, que se tinha tornado na sua pior inimiga. Jenny olhou-me, e eu levantei-lhe o queixo, numa atitude de superioridade. Ela avaliou as minhas vestes, e devo dizer que se mostrou um pouco surpresa por eu pertencer ao conselho. Sorri-lhe, num acto de cinismo.
- Bem, bem, já que não dizes nada, deixa-me apresentar-vos os meus amigos – disse Vivianne, cínica. – Gustav, Ruth, Paul, Rebbecca, eu, Anthony, Jenny, Russell e Taylor. É um prazer – disse, nomeando-os da esquerda para a direita.
- O prazer é todo teu – rosnei, entre dentes. – Chega de joguinhos, Vivianne. Tu sabes bem que não me interessa os nomes deles, daqui a pouco, deixarão de existir – ameacei, sorrindo. Foi a vez de Vivianne semicerrar os olhos.
- Podias ao menos ser um pouco mais bem-educada, digo eu. Não me apresentas os teus amigos? Não é muito justo saberem os nossos nomes, e nós não sabermos os vossos, não achas?
- Não, não acho. O que não acho justo é usares uma das amigas da Lil para a apanhar, pensando que assim seria mais fácil atingi-la. Mas enganas-te, Vivianne. Nós não vamos ceder só porque a Jennifer se tornou uma de vós; foi uma escolha dela, agora, sofrerá as consequências – disse Leonard, fitando zangado Vivianne. Ela cerrou o maxilar.
- Tens razão, foi uma escolha minha, portanto, não a culpes quando eu dilacerar o vosso frágil corpo, sem dó nem piedade. A começar por ti, Brandie – disse Jenny, num tom de voz que achava que nos assustaria. No entanto, Brandie manteve-se firme.
- Vamos ver quem sai daqui vivo, e quem nunca mais sairá – respondeu Brandie, rosnando de seguida. Olhei-a, orgulhosa.
- Oh, que bonito que isto está por aqui, mas acho que já chega – disse Anthony, num tom de voz grave e pouco atraente.
- Olha, que giro, concordo nele numa coisa: já estou farta destes preliminares. Hum, digamos que tu só estás a fazer isto para adiar o teu cruel destino: a morte – declarei, fitando Vivianne nos olhos.
- Ah-ah-ah – riu-se, sem humor. – Pois, acredito nisso. Vamos ver isso.
Baixou-se um pouco, numa atitude atacante, enquanto eu levantava uma das minhas perfeitas sobrancelhas. Rosnou-me, mas nada se comparava ao rosnar que eu sabia que faria, mal estivesse na minha forma de tigre. Ri-me.
- É só isso que tens para dar? – Questionei, rindo-me às gargalhadas. Ela cuspiu na minha direcção, o que me fez rosnar de volta. – Pessoal, é agora – declarei, e todos começaram a dizer a frase que lhes houvera ditado. Fiquei a ver a reacção dos vampiros negros, e, de seguida, transformei-me.
Vivianne ficou hirta como uma vara, a olhar-me, espantada.
- Mas que raio!? – disse ela, surpresa, e até um pouco assustada. Rosnei, para a assustar mais, o que a fez dar um passo atrás.
Vi vagamente os meus amigos a destruírem o oponente que se encontrava à sua frente, mas estava mais concentrada na reacção de Vivianne. Ela olhava à volta, a ver aquilo que o destino lhe reservava.
- Sabes, Vivianne, quando disse que ias morrer, não estava a supor – disse a minha voz interior, imponente. Ela assustou-se, e caiu para trás. Sorri, mostrando todos os meus dentes num sorriso assustador.
Vivianne gritou, como se isso a fosse ajudar em algo. Revirei os olhos, enquanto andava na sua direcção. Vi-a recuar um pouco, e saltei para cima dela, impedindo-a de se mover, com o focinho a poucos centímetros da sua cara. Rosnei de novo, e Vivianne tentou tirar-me de cima dela, com o braço. Aproximei mais o focinho da sua cara.
- Desiste, Vivianne, o teu destino já está escrito – disse, fazendo-a olhar-me, obviamente aterrorizada.
- Não, por favor, eu prometo que paro, eu não te persigo mais, não te farei nada, por favor. Mas deixa-me apenas viver, não te peço mais nada – pediu, num fio de voz.
Olhei-a, circunspecta. Tornei a revirar os olhos.
- Quase, mas quase que me comovias com toda essa conversa. Mas, mais vale prevenir do que remediar, não é?
Ela tentou lutar contra o meu potente corpo, o que me deixou um pouco zangada e me fez rosnar-lhe.
- Sabes, Vivi – disse, sarcasticamente, - eu ia fazer isto rápido e sem dor, mas, como me estás a enervar muito, agora, vou fazê-lo muito lentamente.
Baixei o focinho até ao seu braço, e sorri enquanto ela hiper-ventilava. Arranquei um pedaço suculento de carne, e fui mastigá-lo para a frente dos seus olhos. Ela gritava de dor, de medo, de terror e até de nojo, enquanto eu engolia a sua carne.
- Hum, delicioso – disse o meu ‘eu interior’, enquanto eu me deliciava.
Eu sabia que, provavelmente, os outros estavam a assistir ao meu espectáculo. Se calhar até me podiam estar a achar um monstro, mas eu não me conseguia conter. Mostrei-lhe os dentes, cheios com o seu sangue, e fui arrancar outro pedaço do mesmo braço. Ela olhou de relance para ele, e, de seguida, chorou como nunca havia chorado, o que, em vez de me comover, tornou-me ainda mais faminta.
Fui arrancando pedaço por pedaço os seus braços, até que me fartei da sua choradeira, que me estava a impedir de aproveitar a minha refeição em paz. Rosnei.
- Pára lá com o choro, Vivianne. Estás realmente a deixar-me fora de mim – disse, fazendo-a chorar ainda mais.
Pensei que, com tanta hemorragia, e que com toda aquela falta de carne, ela morresse e me deixasse comer em paz, mas, pelos vistos, isso não iria acontecer.
Uma parte de mim, a parte malévola, queria deixá-la assistir à sua lenta e dolorosa morte. No entanto, o meu instinto animal dizia-me para a matar de vez, para poder comer. Segui o meu instinto animal, e arranquei-lhe um naco de carne do pescoço, rompendo-lhe a respiração. Passados alguns segundos, Vivianne não passava de um corpo inanimado debaixo de mim, que me serviria de alimento.
Continuei a deliciar-me, até que não restasse nada mais do que ossos, e eu já não tivesse mais nada para mastigar. Lambi a zona do meu focinho que tinha sangue, para me limpar, e também para não desperdiçar nada.
Virei-me, e fiquei surpreendida por ter sido a primeira a terminar. Leonard terminou logo após eu, vindo ter comigo. Não sabia bem o que iria sentir quando estivesse na minha pele humana, portanto, decidi manter-me animal até que todos terminassem, receosa do que poderia acontecer.
Brandie foi a última a terminar a refeição, e eu vi no seu pensamento que, acima de tudo, ela estava deliciada por não ter tido pena de Jennifer. Estava orgulhosa de si mesma. Sorri-lhe, e ela sorriu-me de volta. De seguida, suspirei, preparando-me para voltar à minha forma humana.
Citei as palavras, e, mal me encontrei humana de novo, senti remorsos e nojo pelo que houvera feito. O meu consciente gritava comigo.
“O que foi aquilo? Era preciso tanto? Como foste capaz? Nem acredito que foste capaz! Aquilo foi nojento, e não precisavas de tê-la condenado tanto! Bastava matá-la, Lilith, e o assunto estava resolvido! Que tipo de monstro és tu? Como pudeste ser assim tão má?” era isto que o meu consciente gritava. As lágrimas começaram a cair, e Leo veio abraçar-me.
- O que se passa, Lil? O que tens? – Questionou ele. Fiz uma passagem pela sua mente, para ver se me achava um monstro e não queria mostrá-lo, mas tudo o que consegui ver foi preocupação. Chorei contra o seu peito, enquanto retribua o abraço.
- Sou um monstro, Leo. Eu nem sei o que se passou… mas… - não conseguia, nem sequer queria, contar-lhe tudo o que me houvera passado pela cabeça enquanto via Vivianne sofrer.
O prazer de a ver assustada, de a ver gritar, com dor, era tudo o que conseguia lembra-me. No entanto, depois de estar algum tempo abraçada a Leonard, apercebi-me que, atrás daqueles sentimentos, algo maior se escondia. Pensei de novo naquele tempo, embora me custasse, e pude ver que, atrás daquele prazer de vingança, estava escondido o alívio por ter Leonard a salvo, só para mim, para sempre.
Sorri, entre lágrimas, perante o meu egoísmo. Eu era, sem sombra de dúvida, a pessoa, ou o que quer que fosse, mais egoísta deste e doutro mundo. Tinha exposto os meus amigos ao perigo, apenas para manter a salvo a razão da minha existência. Arrisquei a morte de sete inocentes vampiros, apenas para manter Leonard vivo. Arrisquei a minha própria vida, apenas para que Leonard vivesse. Se ele vivesse, então tudo seria justificado, para mim. Claro que para os outros, provavelmente, não seria visto de tal forma. Mas, desde que Leonard estivesse a salvo, nada do que os outros pensavam realmente me incomodava.
Finalmente, levantei a cabeça do peito de Leonard, e sorri-lhe, mostrando-lhe que estava bem, esquecendo-me completamente que ele podia sentir aquilo que eu sentia. Ri-me, ao lembrar-me de tal facto.
- Posso conhecer a graça, senhora? – Perguntou o meu amor, sussurrando-me ao ouvido.
- É só que eu estou para aqui a sorrir-te, para te mostrar que estou bem, e esqueci-me que podias sentir as minhas emoções – respondi, rindo-me de seguida. Ele riu-se suavemente, e levantou-me o queixo, para olhar nos meus olhos.
- Sabes, não importa. Podes sorrir à vontade. O teu sorriso é a coisa mais bela que os teus lábios conseguem fazer – disse, sorrindo.
- Hum, não concordo. Acho que existe algo que eles fazem que te agrada mais – disse-lhe, séria.
- O quê? – Perguntou, subitamente confuso.
Para ilustrar correctamente aquilo a que me referia, aproximei o meu corpo ainda mais do seu, e beijei-o fervorosamente. Beijámo-nos durante séculos, e, quando terminámos, ele encostou a testa à minha, e sorriu.
- Sim, talvez tenhas razão.
Sorri de volta.
- Bem, meninos, eu sei que estão aí muito divertidos, e tal, mas nós estamos no ir. Vêm, ou quê? – Perguntou Brandie, aproximando-se de nós, com David.
- Ou quê – disse eu, brincando, enquanto Leonard dizia: - Vamos.
Rimo-nos.
- Bem, antes de irmos, convém limparmos isto – constatei, apontando os ossos no chão. – Daí a nada, aparecem humanos, e vão ficar assustados se virem isto assim. E é melhor irmos buscar lixívia, e rápido, antes que o sangue seque e se torne impossível tirá-lo do chão.
Sadie desapareceu e, em um segundo, já estava de volta com uma embalagem de lixívia por abrir, uma grande esponja, e um saco, para pormos os ossos.
Peguei na esponja e na lixívia e, após os outros terem tirado os ossos da rua, despejei toda a lixívia no chão e, em movimentos rápidos, constantes e precisos, limpei todo o sangue visível e invisível da estrada. Sorri, no fim, pois parecia que o chão brilhava.
- Até brilha! – Comentou David, como se me lesse o pensamento. Rimo-nos perante a impossibilidade do facto, mas por, mesmo assim, parecer tão real.
Dirigimo-nos para dentro, e Sadie tirou-me a esponja e a embalagem vazia da mão, indo pousá-las em menos de um segundo.
- Bem, agora, cada quarto tem uma casa de banho. Felizmente, há quartos para todos, embora os pares terem de os partilhar. Mas calculo que isso não seja problema – disse Melvino, quando Sadie chegou. – Sintam-se à vontade de usar o duche. E ponham a vossa roupa a lavar na máquina que se encontra em cada uma das casas de banho. Têm também uma máquina de secar. Mas se, até lá, precisarem da roupa, usem qualquer uma das que esteja nas gavetas. Sintam-se em casa, pois esta poderá vir a ser a vossa casa, se assim o aceitarem – continuou, sorrindo a todos.
- Obrigado por tudo, Melvino, a sério. Iremos ponderar essa hipótese – respondeu Leonard, surpreendendo-me. – Agora, vamos retirar-nos. Vemo-nos mais tarde – disse ainda, puxando-me para o nosso quarto.
Mal entrámos, tranquei a porta, e virei-me para fitar Leonard, confusa.
- Estavas disposto a vir para aqui? E ficar aqui, para sempre? – Questionei.
Ele olhou-me, confuso pelo meu tom de voz chocado, e sorriu-me.
- Amor, vou tomar um duche rápido, e já falamos sobre isso, está bem? – Pediu, vindo beijar-me.
- Sim, está a vontade. Mas depois vou eu – disse-lhe, sorrindo.
- Podias vir agora – sugeriu.
- Pois, aquilo que tu queres sei eu. Mas, pessoalmente, prefiro tomar duche sozinha – declarei, rindo-me do seu ar amuado enquanto ia embora.
Reparei que ele não havia levado roupa, mas nem disse nada.
Esperei que ele saísse do duche, e, mal ouvi a porta da casa de banho abrir, precipitei-me lá para dentro.
O duche ajudou-me a pensar. Talvez ficar aqui nem fosse muito mau, se Leo ficasse comigo. E se David e Brandie também ficassem, claro. Eles eram os meus melhores amigos, e eu não me conseguia imaginar longe deles. Eles constituíam uma grande parte de mim.
Depois do efeito calmante do duche, dirigi-me em toalha para o quarto. Encontrei Leonard deitado em cima da cama, apenas de boxers. Então, peguei numa lingerie um pouco atrevida, vermelha rendada, que tinha, e vesti-a em tempo recorde. Fui deitar-me ao lado de Leonard, que me abraçou.
- Então, retomando a nossa conversa – incitei-o.
- Hum, sobre gostares de tomar duche sozinha… Bem, eu acho que é uma opinião mal… - interrompi-o, tapando-lhe a boca e censurando-o com o olhar.
- Não é essa, tonto. É a outra, sobre ficarmos aqui… - recordei-o, à espera que continuasse.
- Oh, essa conversa. Bem, eu penso que podíamos ficar, não concordas? Gastávamos menos tempo no liceu, e coisas desnecessárias, e ficávamos com mais tempo para nós – justificou-se Leo, e sorriu-me. Abracei-o de maneira a que não me visse a face.
- Mas não tens medo de, no futuro, te cansares de mim? Te cansares de estarmos sempre juntos, sempre a fazer a mesma rotina… – Questionei, envergonhada, e com um certo temor da sua resposta.
Ele levantou-me a cabeça, para me olhar bem no fundo dos olhos, sentindo as minhas emoções, que, neste momento, andavam à roda.
- Lilith… – disse ele, como se me censurasse. – Eu nunca, mas nunca na minha vida, na eternidade que nos for concedida, nunca, mas nunca mesmo, me cansarei de ti. Tu és a única pessoa que alguma vez mexeu com a minha alma – disse. Depois, pousou a minha mão sobre o seu peito, no lado esquerdo. – Sentes a batida? Tão forte, constante, e eterna? É o meu amor por ti. O meu coração está a bater neste momento, e é por tua causa. Só por ti eu continuarei vivo. E, se algum dia morrermos, eu sei que um destino nos aguardará, no outro mundo. Enquanto estiveres comigo, não preciso de mais nada. Tu és tudo para mim, e sempre serás. E eu amo-te, amei-te, e amar-te-ei, para sempre, minha… sonhadora de sangue.
- Sonhadora de sangue? – Perguntei, curiosa, com uma sobrancelha erguida.
- Sim – disse, acariciando-me a face. – Porque tu sonhas com visões do futuro. Sonhaste com o meu sangue, recordaste? Falaste sobre isso enquanto dormias, na nossa primeira vez, na praia. O que, incrivelmente, foi apenas há dois dias.
Suspirei. Ele era demais para mim. Mas, mesmo assim, eu não conseguia afastá-lo, para que arranjasse alguém melhor. Sorri, perante a ideia de, mesmo na morte, continuarmos juntos.
- Então, prometes que continuaremos juntos, não interessa o quê? – Perguntei, agora apenas para o ouvir.
- Para sempre – prometeu, beijando-me de seguida.
- Para sempre – repeti, suspirando, ao abraçá-lo. – Amo-te, meu eterno luar.
- E eu a ti, minha sonhadora de sangue.
FIM