Capítulo 2 - Novo Dia
Estava uma noite fria, se eu assim o pudesse dizer. Para mim, estava uma noite igual a todos Às outras. Escura, boa para pessoas como eu.
Sondei as redondezas e finalmente encontrei quem procurava. Não estava muito longe, mas iria arrepender-se de ter saído de cada hoje. Era incrível como era tão óbvio, mas ninguém suspeitava dele. Bah!
Atravessei à sua frente, e a mente dele ficou cativada. Agora, começava o meu jogo. Senti-o seguir-me até ao beco. Sentei-me lá, e fingi chorar.
- Menina, está tudo bem? – Perguntou.
Levantei a cabeça, esvaída em lágrimas. Consegui ver a sua faca a brilhar na noite.
- Não! Está tudo mal! – Gritei, histericamente.
- O que se passa?
- Assassinaram a minha família… E eu vi – disse, chorando.
- E não acha perigoso andar por aqui, a estas horas, quando alguém fez isso e deixou uma testemunha?
- Mas não conseguia…
- Pois, mas sabe, este beco é um atractor de perigos – interrompeu-me.
- Principalmente para pessoas como tu, assassino – cuspi. – Não te lembras de mim, Ãnh?
Ele agarrou o meu braço.
- Nem penses em gritar…
- Que ninguém te vai ouvir. Já sei.
Ele fez um meio-sorriso.
- Se já sabes o jogo, podemos passar ao interessante…
- Claro – desafiei-o.
- Sabes, foste uma presa fácil. Só alguém muito estúpido viria para um beco falar com um desconhecido, a estas horas…
- Não. Estás enganado. Tu é que foste uma presa fácil.
Ele fez um esgar, e tentou espetar a faca no meu braço. Nada me aconteceu.
- Só alguém muito ignorante seguiria um vampiro para um beco e tentaria matá-lo a estas horas da noite.
Nesse momento, saltei-lhe para a garganta.
Depois de me alimentar, liguei para o 112.
- 112, qual a emergência?
- Encontrei uma pessoa quase morta perto da estrada… Parece que foi atacado por uma raposa! Rápido, por favor! – Disse, histérica. Teria singrado numa carreira de actriz.
- Onde se encontra?
Disse-lhes onde estava, e eles rapidamente chegaram.
Levaram-no para o hospital, onde o analisaram e confirmaram o ataque de uma raposa.
«Obrigado, amiga» pensei. Nesse momento, ouvi algo a correr no mato.
Fui para casa, sem acordar nem Jenny, nem Brandie.
Chegou outra tão esperada manhã, e eu, Jenny e Brandie dirigimo-nos para a escola juntas.
Andava a pensar demasiado em David. Será que o meu Rei das Sombras já tinha encontrado a sua Rainha?
Estávamos no campo da escola, quando Brandie me chamou.
- Rapaz novo, e bem giro, a uns bons metros atrás de ti! – Exclamou ela.
- Deve estar perdido – disse, desinteressada.
- Mas ele vem para aqui. O que vais fazer? – Continuou.
- Simplesmente ignorá-lo – disse-lhe.
- Está quase a chegar… - Disse, desta vez Jenny.
Alguém se aproximou de mim pelas costas.
- Olá, Princesa das Sombras – sussurram-me ao ouvido.
Alarmada, virei-me de repente. Era mesmo ele.
- David! – Sorri-lhe, abraçando-o, de seguida.
- Tive saudades tuas – disse-me.
- E eu tuas, meu... – respondi-lhe, hesitando no final da frase, deixando-a inacabada.
- Quase – disse-me. – Já encontraste o teu Príncipe, foi?
- Não… E tu, já encontraste Rainha? – Perguntei, timidamente.
- Nem por isso… Continuas a ser a minha princesa – sussurrou-me, de novo.
Esbocei um grande sorriso, e ele beijou-me.
- … Meu Rei – disse, culminando a frase que tinha deixado incompleta.
- Eu adoro-te, até que encontremos a nossa metade.
- E eu a ti. E mesmo quando encontrarmos, serás o irmão mais velho que nunca tive – respondi-lhe, feliz.
Ele levantou os olhos para Jenny e Brandie.
- As tuas amigas estão um pouco confusas…
- Devo dizer-lhes que me és o quê? – Perguntei, um pouco aturdida.
- Penso que, por enquanto, namorado é o mais adequado – respondeu-me.
Dirigimo-nos a Jenny e Brandie.
- Jenny, Brandie, apresento-vos o meu namorado de longa data, David. David, estas são a Jenny e a Brandie – disse, apontando.
- Hei – disseram as duas, em uníssono.
Rimo-nos.
- Há quanto tempo? – Perguntou Brandie.
- O quê? – Perguntei, realmente confusa.
- Que se conhecem… e namoram…
- Há uns bons séculos – disse David, em tom de brincadeira, apesar de ser a mais pura das verdades. Brandie fitou-nos, surpreendida, e Jenny olhou para mim como se fosse um ídolo.
- Ele está a brincar – disse eu, para corrigir a situação. – Talvez há três ou quatro anos.
A verdade é que eram 300 anos. Mas elas não podiam saber. A não ser que eu… Chuu! Cala-te, mente!
- Mas já não nos víamos há algum tempo. E ele não me disse que vinha para cá – acusei-o.
- Era para ser surpresa, tontinha – disse-me David.
Resfoleguei, e, entretanto, Brandie criou um novo sonho… Oh, não!
No mais recente sonho de Brandie, ela estava com o rapaz que ela amava, e ele amava-a igualmente. Sem querer, ele cortava-se, e ela, num acto carinhoso, bebia o seu sangue. Até aí, tudo bem. Só havia um único problema: esse rapaz era David, e se ela bebesse o deu sangue. Inspirei rapidamente, assustada.
Jenny apercebeu-se do ar sonhador de Brandie e acotovelou-a.
- Vieste preparado para o único e último ano neste liceu? – Perguntou Jenny, para aligeirar o ambiente, a David.
- Tenho de estar – disse ele.
«Já estou habituado», pensou. Ri-me.
- Queres partilhar a piada? – Questionou Brandie, um pouco azeda.
Acenei negativamente com a cabeça.
- Não é nada… Pequenos pensamentos irónicos.
Olhei para David em sinal de acusação. Ele respondeu com o sorriso que eu tanto amava, e eu derreti.
A campainha soou, obrigando-nos a dirigirmo-nos para as nossas aulas.
Mais uma normal aula de Latim, só não esperava que o aluno que houvera faltado ontem fosse a meu lado.
- Olá, sou o Leonard – disse-me.
- Lily – respondi, sem olhar para ele.
Ele por vezes tentava iniciar uma conversa, mas faltava-lhe a coragem. Nem sequer o olhei, mas pela maneira como falava, não parecia nada atractivo.
Chegou o final da aula e eu folguei em vir embora. Leonard não era, de todo, o tipo de rapaz que me atraía. Já ele, bem, parecia atraído por mim. Uma desilusão não o mataria, pois não?
- O que tens? – Questionou David.
- Um rapaz aborrecido, deixa para lá…
- Não é ‘deixa para lá’, Lilith! Pode ser que ele seja…
- Não é – interrompi-o. – Não me atrai nem um pouco. Zero. Nada.
David revirou os olhos, enquanto estendia o braço direito para me alcançar a cintura e abraçar-me.
Este novo dia estava cheio de surpresas, principalmente para Jenny.
Era o seu 18º aniversário, e ela nem imaginava a surpresa que a esperava em casa.
E o crepúsculo ainda não tinha dado o dia por culminado.