Capítulo 4 - Amanhecer
Brandie ainda não sabia como caçar, como procurar, e, principalmente, como se controlar.
Tive o cuidado de a levar por sítios onde não estivesse muita gente, para ela não ceder à tentação e nos denunciar.
- O que vamos caçar? – Perguntou, a medo.
- O que preferires – respondi, olhando o seu rosto. Íamos de mãos dadas, pois ela tinha medo de perder o controlo e magoar alguém, assim, estava certa que eu a refrearia de tal ideia.
- Achas que o sangue animal me retiraria alguma força? Ou seria tão benéfico como o sangue humano? – Perguntou.
- É igual, Brandie. O mais forte de todos é o sangue do teu parceiro, que, por norma, será vampiro. Enquanto não o encontrares, sangue animal e sangue humano é a mesma coisa.
Brandie sorriu, aliviada.
- Vamos caçar alguns animais ferozes – disse ela, entusiasmada.
Fiz um trejeito, desagradada.
- Caçar animais não é assim tão bom, sabes, Brandie?
- O que queres dizer com isso? – Perguntou, desconfiada.
- B, nós conseguimos sentir o terror deles, e tudo mais. Temos uma ligação inquebrável com eles. Desculpa, mas eu não caço animais… Vou contigo, para te ensinar, mas não os matarei.
Brandie soltou um pequeno assobio.
- Tu. Caças. Pessoas. – Disse ela, assustada.
- Eu não os mato, ok? Apenas lhes prego um pequeno susto… Eles merecem.
- Eles? – Disse ela, confusa.
- Apenas persigo assassinos, B – respondi, descontraída.
Brandie parecia muito confusa. Tentei esclarecê-la.
- Anda comigo, e já vais ver o que te falei sobre os animais…
Impulsionei-me numa corrida invisível para os humanos, discretamente. Brandie acompanhou-me numa explosão de adrenalina. Chegámos à floresta, e eu parei.
- Amiga raposa, podes aparecer, por favor.
Brandie tentava controlar o riso perante a figura idiota que eu sabia que fazia, até que uma raposa apareceu e se aproximou de mim. Afaguei-lhe o pêlo e falei a Brandie.
- Vês? Eles entendem-nos – Brandie estava boquiaberta perante tal cenário, e eu não quis interromper o seu pensamento, sorrindo apenas para a raposa.
- Achas que ela me magoaria se eu tentasse tocar-lhe? – Perguntou Brandie, receosa.
A raposa resfolegou, e aproximou-se de Brandie. Brandie baixou-se, devagar e afagou-lhe o focinho. Sorriu, e continuou.
- O que me dizes agora? – Perguntei.
- Promete-me que não me deixas matá-lo, por favor – pediu.
Assenti e fomos embora. Corremos até um pequeno beco que eu conhecia, e aí, esperámos pela caça. Ele estava quase a chegar, e, como eu já me tinha alimentado ontem, fiquei a observar enquanto Brandie se alimentava, para poder pará-la quando fosse o suficiente. Aproximei-me dela, e ela entendeu o que eu iria pedir-lhe, e largou o assassino. Levámo-lo para junto da floresta, e, mais uma vez, a raposa ajudou a encobrir o nosso segredo. Deixámo-lo lá até que alguém o encontrasse, e não demorou muito tempo.
Fomos para casa, e Jenny ainda não houvera chegado.
- Estou um pouco cansada – disse Brandie, alarmada. – Isto é normal?
- Sim, também fico assim. Vai dormir um pouco… Mal o cansaço desapareça, acordarás. Amanhã teremos um grande dia pela frente – avisei-a.
- Porquê? – Questionou ela, curiosa.
- Custa um pouco o primeiro dia. Mas não te preocupes, tu e a Jenny estarão seguras. Eu ajudo-vos.
Brandie, que havia ficado petrificada quando mencionei que custava, relaxou agora, dando-me um enorme voto de confiança. Depois, foi deitar-se e eu fiquei sozinha. Bem, não durante muito tempo.
- A Brandie? – Perguntou Jenny, preocupada.
- Está a descansar um pouco – respondi.
Jenny estava um pouco nervosa.
- O que se passa, Jenny? – Perguntei.
- Hoje, após a transformação, aconteceu-me algo estranho – respondeu, inquieta, enquanto se sentava a meu lado no sofá.
- Algo estranho? – Incitei-a a continuar.
- Sim, foi... diferente. Abracei a minha mãe, e foi como se visse o futuro a passar-me à frente. Mas não era o meu futuro. Era o nosso futuro. Aquilo que viveríamos, juntas.
Arregalei os olhos, e Jenny assustou-se.
- O que foi, Lil? Que se passa? – Perguntou, realmente nervosa.
Respirei fundo duas vezes, e, de seguida, fitei-a.
- Jenny! Isso… é um poder. Mas só costumam aparecer quando bebes sangue do teu parceiro... – Disse-lhe, indignada.
Jenny baixou a cabeça e corou.
- Sabes, não foi a minha mãe que me transformou...
- Como, não foi a tua mãe? Quem foi, então?
- Bem, foi um vampiro que vive com ela... Mas ele é diferente de nós. Nós temos descendência londrina, ele tem descendência canadiana. Os vampiros canadianos sabem logo quando encontram a parceira, enquanto nós, demora um mês... Ele disse-me que eu estava destinada a ser a sua parceira, e falou com a minha mãe para me transformar ele. A minha mãe acedeu, e pronto, aqui estou eu – sorriu.
Ela deve ter ficado à espera que eu dissesse algo, pois não se atreveu a dizer mais nada.
- Ele é muito diferente? – Atrevi-me a perguntar.
- Um pouco… Sabes, se passares por ele nem o reconheces como vampiro. São exactamente como os humanos, excepto a força extrema e a velocidade inumana. Mas o cheiro dele, os olhos, é tudo igual. É tão frágil como um humano, também, mas sara muito rapidamente.
Estava pasmada com aquelas revelações. Será que já tinha passado por um vampiro canadiano, e não o tinha reconhecido?
- Bem, estou cansada. Vou descansar um pouco – disse-me Jenny.
- Oh, sim, claro. Até amanhã, querida – disse-lhe, sorrindo.
Jenny foi para cima, e eu fiquei de novo sozinha. Pensei em ir dar uma volta, mas não queria ir sozinha. Será que eu podia pedir a Jenny para visitar a mãe dela? Tornámo-nos grandes amigas desde aquela noite, e eu já não a via há algum tempo.
Mas eu sabia que não era esse o meu desejo verdadeiro – eu desejava encontrar o meu parceiro, tal como acontecera com Jenny.
Suspirei. Ia descansar um pouco, iria fazer-me bem, com certeza. Desloquei-me para o meu quarto e deitei-me na cama, com as luzes apagadas. Via perfeitamente no escuro, portanto, fui capaz de ver o súbito movimento do lado de fora da minha janela. Fui espreitar, mas não vi ninguém. Estranho.
Ignorei, mas continuei alerta. Deitei-me de novo, e pus a minha música favorita a tocar. Adormeci, por instantes, e sonhava com o toque de alguém na minha face, acariciando-a, um beijo que me davam na testa. Parecia tão real que, quando despertei, tive a sensação de que tivesse mesmo acontecido.
- Pateta – sussurrei, para mim mesma. Ouvi um baque na porta. Era Brandie.
- Desculpa, Lily. Acordei-te?
Sentei-me na cama.
- Não, podes entrar – respondi-lhe. Ela entrou e sentou-se a meu lado.
- Sabes, a Jenny já encontrou o seu parceiro…
- Sim, sei, ela contou-me – suspirei de novo.
- Quem me dera encontrar o meu... – Disse Brandie, sonhadora.
Vi de novo o sonho que ela tivera: ela e David juntos. Tentei encorajá-la.
- Se calhar já encontraste, mas demora a porcaria de um mês para saberes, não percebo bem porquê – queixei-me.
Ambas suspiramos, derrotadas.
- Olha – disse Brandie, apontando a janela.
Sim, já estava a amanhecer.