Capítulo 6 - Lua Cheia

Após o que se passara no corredor, saberia que as minhas aulas seriam um tormento: mas nunca calculara que seria assim tão difícil manter-me sob controlo.

- Ah! – Gritei, exasperada, no meio da aula, ao ter que lidar com todos os sonhos de qualquer rapaz que se encontrasse dentro da sala. Brandie, que estava ao meu lado, sobressaltou-se com o meu grito. – Controlem-se – rosnei.

O professor olhava-me, obviamente confuso, mas eu não fiz caso de olhar para ele. Levantei-me, e saí da sala, sem pedir autorização. Ouvi o professor a gritar-me:

- Onde vai? Volte já aqui!

Assim que me apercebi que já estaria fora do campo de visão de algum professor, comecei a correr. Não estava a correr como se estivesse numa aula de educação física, em que me controlava, ou mesmo como houvera corrido no intervalo anterior, perseguindo Vivianne. Corria velozmente, sabendo que nunca ninguém me apanharia. Mesmo que Brandie ousasse sair também da sala para me seguir, nunca conseguiria acompanhar-me. Ou talvez conseguisse.

- Lily, espera! – Ouvi-a gritar atrás de mim. – Uf! Corres bem – disse, cansada.

Já estávamos num local desprovido de humanos, e eu estaquei, repentinamente, levando Brandie a estacar alguns metros à minha frente. Olhava-me com uma expressão confusa, enquanto eu me sentava no chão molhado, expondo-me à chuva sem preocupações. O meu casaco negro colava-se ao corpo, por cima dos Jeans e da t-shirt. Não percebia: não tinham dito que estaria Sol até o início da próxima semana? Bem, de qualquer maneira, amanhã estaria um sol radiante, esperava eu. Se assim não o fosse, não conseguiria cumprir os sonhos de Jenny e Brandie. Se bem que, agora, elas tinham novas razões para serem admiradas.

- O que se passou? – Perguntou, baixinho, Brandie.

- Uf… Sabes, eu tenho esta pequena capacidade de saber os sonhos das pessoas que me rodeiam, e, naquele momento, todos os rapazes sonhavam em ter-me, e fiquei… farta – respondi, inspirando profundamente, de seguida.

Brandie soltou um riso algo reprimido.

- E isso não é bom? Todos os rapazes a quererem-te? Uh! Deve ser tão fascina…

- Não, não é! Eu consigo ver todos os seus sonhos, e alguns deixam-me nauseada.

Brandie riu-se novamente, desta vez mais livremente.

- Imagino – balbuciou, entre risos.

- Não, não imaginas – murmurei, acompanhando-a com gargalhadas silenciosas.

Gostava imenso de Brandie. Ela era muito boa rapariga. Tinha uma relação muito aberta com ela, e sabia que poderia confiar nela para qualquer coisa. Ela era especial, sem dúvida. Tinha um pressentimento, uma coisa que me dava, de vez em quando, que ela ficaria com David. E, neste momento, enquanto a via sorrir-me, não me sentia mal por isso. Sentia-me até bastante bem, para ser sincera. Sentia que era com ela que David deveria ficar. Sorri-lhe. Quando tinha estas pequenas premonições, se assim as pudéssemos denominar, não era costume estar errada. Foi nesse momento que a dor me atravessou. Era isto. Eu sabia que o perderia em breve. Mais valia afastar-me já, para não sofrer tanto. Sim, era melhor para mim cortar o vício antes que este deixasse de existir, deixando-me vazia. Era isso que iria fazer. Eu era corajosa o suficiente para isso. «Será que sou?»

Continuava a sorrir, apesar da dor que me preenchesse fosse de uma imensidão demasiado vasta para que pudesse pôr-lhe termo; pelo menos por enquanto.

- Estás com vontade de voltar para a aula? É que bem, ouço tudo daqui – sorriu Brandie.

Olhei-a, sabendo que a minha dor estava bem escondida. Se ia perder David, era bom que fosse para Brandie. Ela merecia-o. Ela era suficientemente boa para ela. Foi nesse momento que a determinação cobriu toda a minha dor. Iria falar com David, afastar-me dele. Talvez tivesse que mentir-lhe. Ou talvez não. Ainda não havia resolvido essa parte quando respondi a Brandie, calmamente.

- Realmente, não me apetece. Sabe-me bem a chuva a fustigar-me o rosto, para além disso, já ouvi esta matéria cerca de 200 vezes – brinquei, esquecendo as preocupações.

Brandie riu-se, tal como eu fazia, e sentou-se, cruzando as pernas, à minha frente. De repente, o seu rosto metamorfoseou-se: tornou-se numa expressão séria.

- Lil… hoje, quando disseste que já havias enfrentado coisas mais perigosas que a Vivianne, a que te referias, exactamente? – Perguntou, timidamente.

«Oh, não!» pensei. Isto era algo que não queria contar já. Mas, agora, não havia escapatória possível. Respirei fundo, e lancei-me num relato minucioso dos rebeliões vampíricos que houvera enfrentado, e vencido, referi, com um sorriso, e das suas consequências na minha longa vida.

- Hum – replicou Brandie, simplesmente. Eu sabia que ela me escondia algo. Sentia-o no seu olhar penetrante, agora dirigido ao chão, e via-o perfeitamente nas suas faces ruborizadas.

- O que se passa, B? Podes dizer-me – disse, num sussurro praticamente inaudível, se Brandie fosse um ingénuo humano.

- Bem… estava a … ponderar… as razões que levaram a Vivianne a fugir daquela maneira – decretou, olhando através de mim para algo… No entanto, eu apenas via um grande vazio nos seus olhos. Talvez ela não olhasse para algo. Talvez ela olhasse para o nada, verdadeiramente.

- Hum – repeti, num murmúrio pensativo. Aquela questão também me assomou o espírito, quando vi Vivianne correr daquela maneira para longe de mim; mas depressa esqueci o assunto, atenta aos humanos à minha volta. Agora, não tinha nada que me distraísse. «O que se houvera passado ali? O que fizera eu de tão mau, que Vivianne se ausentasse assim? Será que ela estava a enlouquecer?». Tinha imensas questões, e cada vez mais questões se entrelaçavam na minha mente. Todas à procura da mesma resposta, que me escapava. E a Brandie também. E a todas as outras pessoas que assistiram ao sucedido. Algo estava errado com Vivianne, e, agora, eu receava ser a causadora desse erro.

Ficámos em silêncio, a meditar a situação, durante um período interminável.

- Bom, penso que acabaremos por saber – culminou Brandie, dando pouca importância ao assunto.

 

As aulas já haviam terminado, e eu e Brandie dirigíamo-nos para casa. Jenny tinha ido ao encontro de Russell, o seu parceiro. Sabia que, agora, ela passaria a maior parte do seu tempo na companhia de Russell. Não me importei. Secretamente, sentia-me muito melhor ao lado de Brandie. Ela emanava alegria por todo o lado, o que me agradava. Fazia-me bem.

- Hoje, não partiste nenhuma caneta? – Brincou, levando os meus pensamentos a desvanecerem-se.

- Hum, sobreviveram todas – disse, sorrindo, de seguida. Já estávamos quase em casa, quando tive uma sensação estranha. Sentia que éramos seguidas, mas lutei contra o instinto de me virar para o confirmar, receando encontrar rapazes desejosos de me pôr a mão em cima, literalmente.

Tinha optado por esquecer aquela sensação, mas Brandie não me deu hipotese.

- Lil, hum, acho que estamos a ser seguidas. – Disse ela, baixinho. – Acho que devias fazer algo, realmente.

Suspirei e, exasperada, voltei-me. Esperava ver um grande grupo de rapazes prontos a devorarem-me, no entanto, o único rapaz que se encontrava atrás de mim tinha uma expressão muito carinhosa no rosto. A sua expressão fez-me sentir diferente; sentia-me nova, viva. Ele fez-me esquecer David, por momentos. Fez-me sentir algo mais forte do que o que eu sentia por David, em apenas um segundo. No entanto, quando ele falou, tudo se desvaneceu, dando lugar à surpresa, e até à fúria.

- Lilith, sou o Leonard – disse ele, com uma voz suave como a seda, e carinhosa.

- Sim, estás a meu lado na aula de Latim – declarei, com Brandie perplexa, a meu lado. – Mas o que estás aqui a fazer? Por que raio me seguiste? – Gritei-lhe.

Leonard assustou-se com o meu tom de voz. Deu um passo para trás, perante a ferocidade patente na minha voz.

- Calma, Lil. Eu apenas queria falar contigo... Porque…

- VAI-TE EMBORA! – Gritei-lhe, já fora de mim. – Vocês rapazes são demais! Antes de saberem o que eu era, nunca se atreveriam a falar comigo; mas agora, que Vivianne me teme, vêm todos atrás de mim.

- Todos? – Questionaram Brandie e Leonard, simultaneamente.

Rosnei, em sinal de fúria.

- Esqueceram-se que eu tenho uns sentidos muito apurados, ó vocês que estão atrás da casa amarela? FORA DAQUI! DEIXEM-ME. EM. PAZ!

O grupo que se encontrava atrás da casa amarela saiu, mostrando um extraordinário número de 27 rapazes da das minhas turmas de História e de Latim. Revirei os olhos, e eles viraram-se para se irem embora. Não antes de terem mais um dos seus sonhos perversos, comigo no centro.

-C-O-N-T-R-O-L-E-M as vossas mentes! Estou farta disto.

Rugi, profundamente, o que, como eu tinha previsto, os assustou bastante, fazendo-os deixarem o meu lado aos tropeções. Respirei de alívio.

Voltei-me, mas Leonard ainda lá estava. Comecei a fulminá-lo, à espera que também se fosse embora.

- Leonard, vai-te embora. Eu sei que gostavas de… hum… ter-me, mas eu sou perigosa. Perigosa para todos. Eu não devia existir, sabes? Deveria ter morrido há muito tempo atrás. Por favor, não te quero magoar, nem nada, mas tens que esquecer-me. – Desta vez, eu havia falado com uma calma profunda. Quando falava só para Leonard, era fácil manter a calma. Ele era só um, e eu esperava sinceramente que ele compreendesse.

- Lil, eu vou embora. Por agora. Continuo a querer conversar contigo. Mas podemos falar depois. Temos uma eternidade para isso – ele sorriu.

Ia começar a explicar-lhe que eu não o transformaria, em qualquer ocasião, mas fui interrompida por um gesto que Leonard fez. Ele aproximou-se de mim e afagou-me uma das maçãs do rosto. Eu estava perplexa, tal como Brandie. Depois, Leonard sorriu-me, virou-se, e foi embora num passo lento, mas muito gracioso.  Eu quase podia sentir a sua alegria. Quase que podia sentir a felicidade que aquele momento lhe causara. Quando estava prestes a correr atrás dele para retribuir, fui interrompida por uma exasperação pesada atrás de mim. Virei-me para me deparar com um David furioso, pronto a atirar-se ao pescoço de Leonard.

- David, pára. Por favor. Tu sabes que os rapazes vão andar atrás de mim durante algum tempo. Mas eu já falei com o Leo, e penso que ele há-de compreender.

- Leo, ah? Muito bonito, Lilith. Muito bonito mesmo. Obrigado por me avisares que já eram tão amigos.

Revirei os olhos.

- Dave, eu não o conheço de lado nenhum, sabes? Foi a primeira vez que falei com ele.

- Sim, Lil, muito convincente. Então quando o tratas por ‘Leo’, convence-me de morte – disse David, num tom sarcástico.

Se havia coisa que eu não tolerava era que falassem de morte comigo. E David sabia-o.

- David, primeiro: não tens razões para estares zangado comigo, eu estou a dizer-te a verdade, só lhe chamei Leo porque Leonard é muito comprido; segundo: eu não te devo justificações; e terceiro: ESQUECE QUE EU EXISTO! – Gritei, com lágrimas a saltitarem dos meus olhos, acompanhadas por alguns soluços involuntários.

Já tinha escurecido, e a Lua Cheia iluminava o rosto de David enquanto a razão inundava os seus olhos, agora que eu chorava convulsivamente. Ele deu um passo em frente e eu afastei-me, como se ele fosse um inimigo.

- Lil, desculpa. Não sei o que se passou comigo. Nunca deveria ter feito esta cena de ciúmes. Eu deveria ter acreditado em ti. Perdoa-me pela minha indelicadeza. Serás capaz de perdoar este pobre rapaz que te adora veemente?

Eu sentia Brandie a meu lado, a respirar profundamente, para não começar a chorar também. Passei o meu braço pela sua cintura, e ela pousou o seu braço sobre os meus ombros.

- David, tu sabes que eu não sou capaz de ficar zangada contigo por muito tempo – senti Brandie petrificar, sufocando-me, se eu necessitasse mesmo de respirar, – mas, de qualquer maneira, nós já andamos há tempo demais a fugir do que é verdadeiro, na nossa espécie. Não é normal nós andarmos, quando existem por aí os nossos parceiros, se calhar mais perto do que julgamos – olhei de relance para Brandie, que me olhou, penosa, ao sentir a tristeza da minha voz. – David, está na altura de esquecermos aquilo que tivemos. Está na hora de sermos apenas aquilo que estamos destinados a ser: amigos.

Suspirei ruidosamente, e um soluço irrompeu do meu peito, levando Brandie a abraçar-me fortemente. Chorei contra o seu ombro, molhando a sua t-shirt básica verde, manchando-a de água salgada. Brandie afagava-me a cabeça, e eu conseguia senti-la respirar contra o meu pescoço, como se também ela chorasse. Abracei-a ainda mais, formando uma corrente indestrutível para qualquer um. Apenas eu conseguia ter esta força, e não era possível demovê-la.

Conseguia sentir a respiração surpresa de David, e até conseguia imaginar a sua face: neste momento, os seus olhos estariam muito arregalados, e a sua boca formaria um ‘o’, devido ao choque. Estaria com as faces pálidas, e o sangue estaria como que parado nas palmas das suas mãos, provocando-lhe formigueiro. Eu conhecia essa sensação.

- Tu não podes estar a falar a sério – replicou David, dificilmente.

Larguei Brandie, e aproximei-me dele, apoiando-me nas pontas dos pés para lhe dar um suave beijo na face macia. Depois, pousei a planta dos pés no chão, afaguei-lhe a face contrária à que havia beijado, e murmurei:

- Tu hás-de perdoar-me, um dia.

Ele fitava-me, assombrado. Depois, com um silvo quase inaudível, partiu. Deixou-me a chorar, no meu caminho para casa, com a luz da Lua a bater-me na face, tornando-a de um branco quase fantasmagórico.

- Vem, Lily, vamos – sussurrou Brandie, puxando-me.

Segui com ela, apática. Não conseguia conter os soluços que me preenchiam, indo praticamente todo o caminho a guinchar, de mão dada a Brandie.

Brandie acompanhava-me silenciosa e pensativa. Ela suspirava, de vez em quando. Caminhávamos calmamente, apenas se ouvindo o som dos meus soluços. Os nossos passos eram muito silenciosos. Nem o mais apurado dos ouvidos os ouviriam. Nós estávamos praticamente a voar pelas ruas, até chegarmos a casa.

Jenny ainda não houvera voltado. Provavelmente, ainda estava na companhia de Russell.

- Bem, vou para o meu quarto – consegui sussurrar, entre os soluços. – Necessito de descansar.

- Eu também – respondeu Brandie, calmamente.

Ao princípio, pensei que ela se referisse a que também ia para o seu quarto. No entanto, quando ela me seguiu para o meu quarto, percebi. Ela dissera que também ia para o meu quarto. Noutra altura, seria capaz de me ter aborrecido, no entanto, agora, apenas desejava ardentemente que ninguém me deixasse sozinha.

Chegámos ao meu quarto, eu apercebi-me que já não era a primeira vez que Brandie se encontrava comigo no quarto, de noite.

Já houvera precedentes disto. Era incrível que tivesse sido apenas na noite anterior. Este dia tinha sido demasiado comprido, mesmo para um vampiro. Fora tão diferente dos dias normais que, mal me deitei aninhada na cama, com Brandie sentada a meus pés, adormeci. Sonhei com Leonard, estranhamente. Sonhei connosco juntos, mas não éramos mais do que amigos. Mesmo no meu sonho, sentia-me bem. Completa. Depois, entendi todos os sentimentos estranhos que me assolavam o espírito: sentia-me apaixonada.

Não era uma simples atracção como a que tivera por David, isso já estava esquecido. Era uma paixão forte, que a qualquer ponto se transformaria em amor.

- Li, necessitamos falar – dizia ele, com a sua voz perfeita de anjo, que parecia ponta a entoar uma melodia apaixonada para mim. Sorri-lhe.

- Diz, Leo – pedi, carinhosamente. Ele afagou-me o rosto numa carícia suave como seda, que fez com que a minha pele de granito parecesse um pedaço enrugado de papel. Parecia frágil ao seu toque.

- Li, eu tenho que contar-te algo. Eu não sou um simples humano… Eu sou como tu. Lembraste da Vivianne?

Lembrava-me dela nitidamente, mesmo neste sonho esbatido. A conversa estava a tornar-se confusa; pelo menos para mim.

Sem coragem de falar, com receio da minha voz falhar perante a afirmação de Leonard, e a referência a Vivianne, acenei com a cabeça.

- Bem, foi ela que me transformou, alguns anos após ter sido criada. Ela transformou-me porque gostava de mim, mesmo que o sentimento não fosse recíproco. Mal ela o fez, arrependeu-se, ao ver-me fugir dela com todas as forças que tinha. No entanto, não é capaz de destruir-me: o criador nunca consegue fazê-lo. Eu poderia destrui-la sem problemas nenhuns, mas não quero fazê-lo; afinal, ela apresentou-me a um novo modo de vida que me agrada. E assim, pude encontrar-te.

Apesar da surpresa que me invadiu perante o seu relato, não me importei. Estava demasiado feliz para estragar o momento. Eu sentia o desejo por Leo desde o início deste sonho, mas não quisera expressá-lo com medo de o magoar; no entanto, agora, eu não o magoaria. Deixei o desejo fluir, e, entretanto, as coisas ficaram demasiado privadas para eu poder descrevê-las correctamente.

Acordei, aos gritos, assustando Brandie, que houvera adormecido aos pés da minha cama. Eu não tinha a certeza do que me fizera gritar: se a estranheza do meu sonho, se as chamas que me queimavam por dentro e gritavam por Leonard.

Algo aqui estava muito mal. Eu tinha acabado de largar David por causa de Leonard; deveria estar zangada com ele, não desejosa pelo seu abraço.

Mesmo que o meu consciente concordasse plenamente com isso, o meu subconsciente continuava a dar ordens de queimação e ordenava todas as minhas células a gritar por Leonard. Tive que usar muito controlo para deixar de gritar, antes que começasse mesmo a gritar por ele, como me era pedido pelo subconsciente.

Brandie fitava-me, confusa pela gritaria e divisão patente no meu rosto. Eu sabia como se expressava o meu rosto: uma metade, estava percorrida por desejo por Leonard, enquanto na outra mostrava alguma ferocidade para com o mesmo, por invadir os meus sonhos de uma forma tão íntima. Concluindo, tinha uma expressão engraçada, pois Brandie começou a rir-se. Finalmente, a ferocidade sobrepôs-se ao desejo. Graças a Deus que o meu consciente ainda conseguia comandar!

A minha amiga acautelou-se, não querendo ser confrontada por uma vampira com mais trezentos anos de experiência do que a dela, e com o triplo da sua força.

Foi a minha vez de rir-me. Ela estava tão assustada, que começou até a afastar-se, e foi isso que provocou o meu riso. Nunca na vida eu magoaria Brandie! Ah, ah, ah!

A minha companheira acompanhou o meu riso, mais liberta do seu medo.

- Tonta, eu nunca te magoaria. Gosto demasiado de ti – disse eu, entre risos.

Ela riu-se ainda mais.

- Isso por acaso é uma declaração de amor? – Perguntou, irónica. Depois, ajoelhou-se à minha frente e pegou-me na mão: - Eu também gosto demasiado de a sua senhoria, donzela – disse ela, rindo-se às gargalhadas.

Não me ri, apesar de ter sido extremamente engraçado. No entanto, houvera uma vez em que David fizera o mesmo, e então, a raiva que eu tinha por Leonard tomou controlo de mim. Ardia novamente, mas agora não tinha a certeza se seria de desejo ou de sonhar com o seu sangue derramado pelo chão. Sorri, maleficamente.

- Bem, bem, amiga, estamos muito maléficas, hoje. Posso saber quem é o teu alvo? – Questionou-me Brandie, como se me perguntasse pelo tempo.

- Leonard – respondi, antes que pudesse travar-me. Não queria ter que explicar todo o episódio do sonho a Brandie. No entanto, agora, iria ter que fazê-lo.

- Hum, está bem – disse Brandie, baixando a cabeça. Não entendi o que se houvera passado, mas nem tive tempo para lhe perguntar nada; ela levantou a cabeça cansada antes que pudesse fazê-lo.

- Bem, podemos voltar a dormir? Ainda não tinha descansado o suficiente. E sem gritarias desta vez, Lil, por favor – pediu-me, sorrindo.

- Claro. Concordo inteiramente. Também preciso de mais algum repouso.

Brandie deitou-me e deu-me um beijo na testa, como se fosse minha mãe em vez de como uma irmã para mim. Sorri-lhe e, de seguida, ela saiu.

Adormeci como se não dormisse há uma semana.

Desta vez, apesar de o sonho continuar esbatido como o anterior, não estava tão indefinido. O sonho anterior parecia ter um nevoeiro cinzento a cobri-lo, mas eu conseguia vê-lo a ponto de apenas distinguir as pessoas envolvidas, mas não conseguia visualizar o lugar, ou mesmo a data que estava no calendário de parede que consegui ver.

Neste sonho, no entanto, já me era permitido ver o local, apesar de não datar o dia ou a hora em lado algum. Estava com Brandie e Jenny no parque de estacionamento, e, entretanto, David aparecia. Preparava-me para fugir dali quando fui agarrada por ele.

- Lily, eu sei que entre nós não haverá mais nada. Relaxa – disse-me ele. Assim o fiz.

- Apenas queria salientar um ponto: tu ontem disseste que devíamos ser apenas amigos, e é isso que vamos ser. Não podes fugir de mim para sempre, Lilith. Hei, até parece que te quero matar ou algo do género – brincou ele.

Descontrai ainda mais o braço sobre a mão que me segurava, de modo a deixa-lo seguro a ponto de me largar. Mal ele o fez, corri o mais depressa que pude, chegando em menos de um quarto de segundo ao outro lado da escola. Sabia que ele não me seguiria, pois Brandie e Jenny o impediriam.

Aí, encontrei um aluno e pedi-lhe o telemóvel apenas para ver a hora, para ver se seria demasiado cedo para ir para a aula, mas o dia assustou-me. Mostrava o dia seguinte. Devolvi o telemóvel ao aluno, e, não me importando com ainda faltar uma hora completa para a minha primeira aula, dirigi-me à sala.

Má ideia: encontrei Leonard lá dentro, como se me esperasse, e soubesse que aquilo ia acontecer. Revirei os olhos, e ia sair, mas Leonard tinha trancado a porta.

- Jovem, tu viste-me ontem, achas que uma porta me iria deter?

 

Foi a última coisa que me lembro antes de acordar.

Já era de manhã, e, mesmo sem despertador, tinha acordado na hora certa. Levantei-me. Ainda tinha as roupas de ontem vestidas.

Troquei de roupa num abrir e fechar de olhos, e, inevitavelmente, vesti um top preto acompanhado por uma saia um pouco curta, mas não demais, também preta. Calcei as minhas botas de cano e salto alto, e prendi uma corrente na saia. Sentia-me capaz de matar alguém hoje, por isso me vestia assim. O meu conjunto de top e saia preto realçava todos os traços do meu corpo, que eu tinha tentado esconder durante todo este tempo.

Antes, eu escondia-os para não dar demasiado nas vistas, ou para não chamar a atenção dos rapazes; agora, não fazia diferença, ambas essas razões haviam-se tornado inválidas ontem, após a minha pequena “luta” com Vivianne, se bem que aquilo que acontecera não dera nem sequer para demonstrar um terço da minha força.

- Who cares? – Disse, para mim mesma.

- Ninguém – respondeu uma voz feminina do outro lado da porta. Era Jenny.

Dirigi-me à porta trancada, para meu espanto, e abri-a, saindo para me encontrar com ela.

Ela e Brandie esperavam-me no corredor, com as normais calças de ganga e t-shirts básicas. A de Jenny era branca, e a de Brandie vermelha. Dei um estalido com a boca, que as fez erguer uma sobrancelha.

- Nem pensem que vos vou deixar continuar a vestirem-se assim – repreendi.

- Mas esta é a roupa que temos, e, dinheiro também não abunda nas nossas mãos – respondeu Jenny, desiludida por não ter mais algum dinheiro consigo para comprar algo melhor. Brandie concordava inteiramente com ela.

- Hum, branco e vermelho, não é? Penso que tenho algo que gostarão.

Elas podiam ser duas estátuas, pois a expressão de uma mistura de confusão e desilusão continuava no seu rosto quando saí e me dirigi à garagem.

Atrás do meu carro, que estava coberto por uma capa para Brandie e Jenny não verem a antiguidade do carro, estava o meu armário de roupas coloridas. Não o usava, apenas o comprara porque gostava imenso de gastar o meu imenso dinheiro, ganho ao último destes trezentos anos, em compras. Sempre que saía algo novo, lá estava eu a comprá-lo. Era quase como um vício, e, finalmente iria ser-me útil. Lá também se encontravam os meus sapatos de cor, pois eu só usava os pretos.

Abri o armário e encontrei o que procurava instantaneamente.

Subi com a roupa estendida no meu braço esquerdo, e os sapatos perfeitamente equilibrados no braço direito. Entreguei o curto vestido branco, que houvera comprado recentemente, a Jenny, e as sandálias de salto agulha prateadas, assim como uns brincos prateados. A Brandie, entreguei um vestido vermelho vivo e brilhante, que lhe daria pelos joelhos, e uns sapatos de cetim vermelho mais esbatido. Visto que ela não tinha furos, e agora não conseguiria fazê-los, não lhe entreguei uns brincos, mas sim uma gargantilha de ouro antiga, para combinar com os tons dourados do vestido e dos sapatos. Elas olhavam maravilhadas para o que lhes houvera entregado, e não se mexiam.

- Vá, toca a mexer. Vão vestir-se, espero por vocês na garagem. Hoje, viajaremos de carro – declarei, sorrindo-lhes.

Em menos de meio segundo, elas haviam desaparecido. Sorri, orgulhosa de ter um bom tacto para a moda. Ninguém ousaria gozá-las, ou chamar-lhes vulgares ou comuns. Se tivessem a ousadia de lhes dirigirem a fala, apenas conseguiriam descrevê-las como ‘perfeitas’ ou ‘ de tirar a respiração’, ou ainda ‘deslumbrantes’.

Fui para a garagem, e, finalmente, destapei o meu Mercedes-Benz 560SL preto de 1986, com um motor potente, que eu mandara colocar recentemente (nos últimos 5 anos), para que pudesse conduzi-lo. Aqui, nunca o houvera conduzido, precisamente pelas mesmas razões porque nunca me vestira desta maneira. Agora, já não me importava com o que os outros pensariam; de qualquer maneira, já era o centro das atenções, portanto, não tinha mal algum usufruir disso.

Sorri às minhas companheiras embasbacadas, e baixei o capote, e ambas entraram de um salto. Brandie acompanhava-me, à frente, e Jenny ia no meio do banco de trás, toda esticada no meio de nós.

Chegámos à escola num ápice, e ainda não houvera chegado ninguém. No entanto, havia uma pessoa que havia chegado que me fez estremecer e lembrar-me da noite anterior.

David chegara, e caminhava na minha direcção.