Capítulo 7 - Os Sonhos
Eu preparava-me realmente para fugir, mas ele agarrou-me no braço antes que pudesse fazê-lo.
- Lily, eu sei que entre nós não haverá mais nada. Relaxa – disse-me ele. Assim o fiz.
- Apenas queria salientar um ponto: tu ontem disseste que devíamos ser apenas amigos, e é isso que vamos ser. Não podes fugir de mim para sempre, Lilith. Hei, até parece que te quero matar ou algo do género – brincou ele.
Descontrai ainda mais o braço sobre a mão que me segurava, de modo a deixa-lo seguro a ponto de me largar. Mal ele o fez, corri o mais depressa que pude, chegando em menos de um quarto de segundo ao outro lado da escola. Sabia que ele não me seguiria, pois Brandie e Jenny o impediriam.
Aí, encontrei um aluno e pedi-lhe o telemóvel apenas para ver a hora, para ver se seria demasiado cedo para ir para a aula. Devolvi o telemóvel ao aluno, e, não me importando com ainda faltar uma hora completa para a minha primeira aula, dirigi-me à sala.
Tal como no sonho, encontrei Leonard lá dentro, como se me esperasse, e soubesse que aquilo ia acontecer. Revirei os olhos, e ia sair, mas Leonard tinha trancado a porta.
- Jovem, tu viste-me ontem, achas que uma porta me iria deter? – Disse eu, sem conseguir travar-me de dizer o que houvera dito no sonho, como se estivesse destinado.
Aí, tudo se tornou novo para mim. Fora aqui que eu acordara.
- Lil, eu não quero magoar-te, nem nada do género, apenas quero ser teu amigo. Podes certamente vê-lo dentro da minha mente.
Apesar que ele apenas tivesse dito isto como uma sugestão que não esperava que eu aceitasse, eu perscrutei a sua mente, à procura de algum sinal de mentira. Não encontrei algo que ele dissesse que fosse mentira. Mesmo assim, não acreditei.
- Então porque trancaste a porta? – Perguntei, de forma acusadora.
- Calma, Lilith. Vinha um rapaz atrás de ti, e como eu queria falar contigo, não queria assistência. E até porque sei que não gostas que te persigam. – Sorriu-me.
- Mas como é que sa…
- Deu para reparar nisso ontem – interrompeu-me ele.
Enrubesci. Tinha-me esquecido da nossa pequena desavença de ontem.
- Pois. Perdoa-me o meu comportamento. É só que não me dou muito bem com as mentes dos rapazes, agora – desculpei-me, envergonhada.
Tinha sido imperdoável a maneira austera como houvera tratado todos aqueles rapazes; se bem que eles até mereceram. Mas Leonard não tivera culpa, eu podia ver que ele não me seguira pelas mesmas razões que os outros. Ele apenas queria uma amizade comigo, e eu precisava de uma. Urgentemente.
- Sem problemas – disse Leo, sorrindo-me. Apesar do seu sorriso, podia ver que ele estava um pouco ausente; pena que eu não conseguisse ler o seu pensamento, gostaria imenso de saber o que o deixava tão distante de mim.
- Está tudo bem? – Perguntava-me ele, vendo a tristeza do meu rosto, que eu mesma não compreendia. Mudei de assunto; não me apetecia dar explicações sobre o que não conhecia.
- Então, amigos? – Disse eu, forçando a minha boca a mostrar um sorriso. Ele riu-se do meu esforço ridículo, pois os meus olhos continuavam a mostrar a tristeza irreflectida que eu sentia.
Ele viu a forma como eu me esforçava para mudar de assunto, então, cedeu.
- Sim, amigos – ele ia dizer algo mais, mas interrompeu-se. Eu também não iria puxar pelo assunto; quando ele quisesse, diria.
- Ainda bem, estou mesmo a precisar de um – disse eu, com toda a tristeza comprimida dentro de mim a fluir livremente.
Leo, assustado por tanta tristeza, aproximou-se de mim e começou a puxar-me para ele.
Afastei-me de um salto, e fitei-o, sentindo-me traída.
- Com que então amigos, hein? Que é isto? É esta a tua noção de amigos? – Acusei-o.
Ele revirou os olhos, descontraído.
- Ia apenas levar-te para uma cadeira, Lily. Nada mais.
Apesar de eu ter-lhe falado pessimamente, ele sorria-me. Isso era bom. Estava a prever que passaria algum tempo com ele, e, por vezes, iria libertar nele a raiva que guardava por qualquer outro ser. Era bom que ele não levasse isso muito a peito, evitava muitos arrependimentos.
- Oh, peço perdão, garçon – disse eu, usufruindo do meu francês, que já não falava há imenso tempo, apesar de ter vivido uma grande parte da minha vida em França. Foi lá que David me encontrou.
- Ce ne fait rien, mademoiselle – respondeu Leo, antes mesmo de eu começar a chorar.
Desta vez, Leo não me puxou, mas fez-me sinal para que me sentasse a seu lado. Caminhei para lá, chorando, e, quando lá cheguei, permiti que ele me abraçasse. Chorei contra o seu ombro durante algum tempo, enquanto ele me afagava as costas, consolando-me. De repente, ele petrificou.
- Se calhar não deveríamos estar assim – disse ele, preocupado. Tentou afastar-se, mas eu não permiti. Isto fazia-me bem. O choro já tinha culminado quando lhe respondi.
- Porque não? – Fitei-o, não o largando, e ele fechou os olhos, derrotado e triste.
Só entendi tudo quando David forçou a fechadura, entrando de rompante na sala, acompanhado por Jenny e Brandie.
Por mais que eu quisesse, não conseguia mexer-me. Apesar de Leonard ter baixado os braços e dando-me a oportunidade de o largar, eu não quis.
David estava chocado. Mas, após uma curta pausa, a sua expressão mudou.
- Hum, peço desculpa interromper, mas estávamos preocupados contigo, Lil – disse ele, mais calmo do que alguma vez achei que ele conseguisse. Em vez disso me acalmar, comecei de novo a chorar, pelo que Leonard me abraçou. Pude sentir um pouco de fúria a emanar dele, dirigida a David. Não entendi muito bem a razão, mas também não quis entender.
Mal ouvi a porta bater, Leonard começou a falar ao meu ouvido.
- Calma, querida. Queres contar-me o que se passa? Podes confiar em mim…
Não lhe dei oportunidade de terminar. Do nada, um enorme desejo de o beijar assolou-me o espírito, e, visto eu ter as minhas guardas em baixo, atirei-me de cabeça. Felizmente, ele não retribuiu o beijo, demasiado fiel à nossa amizade.
Suavemente, ele afastou-me, deixando entre nós um palmo de distância.
- Lil, tu não queres fazer isto… Tu própria o mostraste, há pouco. Não o faças como reacção ao que se passou com o teu namorado, está bem? Não quero estragar a nossa amizade – pediu ele, olhando-me nos olhos.
Chorei de novo, mas, agora, não era por causa de David. Foi a dor de uma rejeição. Mas ele tinha razão, eu não queria aquilo. Eu própria o dissera. Ou será que queria, e apenas não queria admiti-lo?
Mas, no fundo, Leonard tinha razão: eu só o fizera como reacção ao que se passara com David…
- Ele não é meu namorado… pelo menos, já não – disse eu, tristemente.
Leonard sentia-se culpado. Obvio. Ele tinha visto o que se passara ontem, quase de certeza. Mas era suposto ele já estar muito longe nessa altura.
- O que se passa, Leo? – Perguntei, fitando-o nos olhos.
Ele sorriu-me ligeiramente, mas eu podia ver que ele se sentia mal. Fiz-lhe um olhar aborrecido, à espera que ele me respondesse. Ele suspirou.
- Ah, Lil, sinto-me terrivelmente culpado pelo que se passou ontem. Ainda tive oportunidade de ver o início da vossa discussão, e percebi que a culpa era minha. Peço-te perdão por ter culminado com a vossa relação. Eu não queria que aquilo tivesse acontecido, sabes? Estava apenas a tentar mostrar-te que eu não sou como os outros rapazes; eu quero mesmo ser teu amigo – disse ele. Pude ver nos seus olhos que se sentiria eternamente culpado. Nesse momento, a vontade de consolá-lo foi tanta, que tive de controlar-me para apenas lhe afagar uma das maças do rosto.
A sua pele era realmente macia. Quando senti a seda que era a sua pele, comecei a percorrer desde a sua maça, até ao seu maxilar. Sem pensar no que fazia, atravessei o meu dedo pelos seus lábios, fazendo toda uma volta no seu rosto. Os seus lábios eram suaves como o veludo, coisa que eu não tivera oportunidade de me aperceber quando o beijara, havia pouco tempo.
- Fecha os olhos – pedi, num sussurro.
Eu estava realmente a apreciar o momento, mas não sabia se o mesmo acontecia com ele. No entanto, não fiz com que a dúvida me retivesse. Continuei a acariciar a sua pele perfeita, nas pálpebras que agora se encontravam expostas. Tive muito cuidado para não exceder na força, para não o magoar.
Queria que este momento durasse para sempre, e, quando estava prestes a dizê-lo em voz alta, a campainha soou, dura e desmancha-prazeres. Bufei de descontentamento, o que Leonard entendeu perfeitamente.
- Pois, eu sei. Raio de campainha, não é? – Disse ele, sorrindo, já me olhando.
Suspirei pesadamente, e afastei-me, deixando-o sair da cadeira onde se encontrava, de modo a que pudesse dirigir-se para a sua sala de aulas. Ele levantou-se, mas, antes de partir, beijou-me suavemente a cabeça.
- Ergue a cabeça, Lil, a tua tristeza não vale a pena – disse-me, com um dedo em baixo do meu queixo, para que o pudesse olhar.
Felizmente, desta vez, o meu sorriso foi genuíno.
- Eu sei. Isto passará, Leo – respondi-lhe. Então, ele afastou-se, deixando-me sozinha na enorme sala.
Os meus colegas começaram a encher a sala, e eu dirigi-me ao meu lugar, ainda tonta pelo que se houvera passado. Sentia-me estranha. É obvio que me sentia extremamente abalada por causa de David, mas, ao mesmo tempo, Leonard atenuava tudo o que ameaçasse destruir-me com a força avassaladora do seu sorriso, que me fazia esquecer tudo; com o brilho natural dos seus olhos, que, momentaneamente, iluminavam todos os negros espaços deixados no meu coração. Era algo que eu mesma não entendia, mas não abdicaria de tal sentimento.
A aula já tinha começado, e o professor Barney falava entusiasticamente sobre Romeu, e a maneira como ele houvera sido bravo, ao morrer pelo amor da sua vida. Há alguns dias atrás, eu poderia ter feito o mesmo por David, mas agora, já não tinha tanta certeza. Bem, tinha acabado com ele, certo? Se calhar era este o nosso destino. Ele ficaria com Brandie, e eu ficaria com… certo, o rapaz em que pensara havia sido Leonard, mas nem sequer percebia porquê. Estava a ficar doida; literalmente. O professor continuava com a sua lição; uma que sempre me deixara entusiasmada, pois pensava que eu seria Julieta, e David seria Romeu. Neste momento, estava entediada, e deprimida. Não conseguia encontrar parte alguma nesta história que me entusiasmasse, como anteriormente fazia.
- Agora, meninos, quero um texto de opinião sobre este amor tão completo. Têm exactamente 50 minutos.
E foi assim que nasceu o texto mais contraditório da minha turma. Era o meu, claro. Depois de tanto tempo, mudei drasticamente de opinião.
- Lilith, podes ler o teu, por favor? – Pediu o professor, esperançado que o meu texto fosse profundo e tão amoroso que todos se ‘apaixonassem’ por ele.
De qualquer maneira, li-o.
- Romeu e Julieta... O que se poderá dizer sobre estes amantes tão predispostos e carinhosos, que morreram pela sua metade? Poderá este amor ser algo que sobreviveu às mágoas do tempo?
Por muito que digam e falem de Romeu e Julieta, eu entendi uma coisa: é apenas uma história. Algo que Shakespeare escreveu, que levou muitas pessoas a acreditarem que o amor é algo belo, e pelo qual mais nada importa, o que não é verdade. Se esta história fez sucesso? Sem dúvida que sim, mas é apenas mais outra história. Romeu e Julieta nunca existiram, nem nenhum amor pode superar tantos obstáculos e manter-se vivo. Jamais na história do ser humano alguém foi tão fiel, tão companheiro, tão corajoso como Romeu. Jamais existiu uma rapariga tão apaixonada ou tão brava como Julieta. Se discordam, pensem um pouco. Romeu e Julieta foi fruto de uma imaginação. Nada mais, nada menos.
Então, em suma, penso que Romeu e Julieta é apenas uma maneira de iludir os humanos para o verdadeiro amor.
Quando terminei, todos estavam chocados, a olhar para mim. Apetecia-me gritar-lhes para olharem para outro lado, mas não me ajudaria nada ir ao director.
- Que é? – Perguntei. Eles continuaram especados a olharem-me, e eu, sem mais nada que pudesse fazer, rosnei um pouco, e sai da sala. Incrivelmente, encontrei Leonard no caminho. Talvez ele tivesse saído mais cedo, estava mesmo quase a soar o toque.
- Então, saíste mais cedo? – Perguntou, sorrindo.
- Se incluíres nisso que saí sem autorização, então, sim, saí mais cedo – respondi, descontraída.
Pensei que, como David fazia, ele fosse passar-me um enorme sermão sobre chamar as atenções e tudo isso, mas, em vez disso, ele apenas se riu. Riu-se de uma maneira que fez o meu estômago contorcer-se, e só demasiado tarde é que reparei que estava enjoada. Mesmo quando a campainha soou e todos saíram, eu comecei a vomitar. No meio do corredor. Sentia-me pessimamente. Caí de joelhos, e tentei levantar-me e ir vomitar para a casa de banho, mas o meu corpo não me obedecia, portanto, mantive-me no meio de um círculo de estúpidos humanos a vomitar todo o sangue que tinha no estômago. Eles não sabiam o quão vulneráveis eles se encontravam agora. Todo aquele sangue à minha frente a acumular-se, estava a esvaziar-me o estômago, e a deixar-me sedenta. Demasiado sedenta. Estava a começar a deixar o meu eu perigoso tomar conta de mim. Eu lutava contra ele, mas podia sentir os meus olhos a tornarem-se negros como o carvão, e os meus dentes a tornarem-se em garras instantâneas. Era incrível como ninguém podia vê-lo. Nem mesmo Leonard, que se encontrava a meu lado, a apoiar-me. Olhei-o de esguelha, quando o vómito parou, e senti o seu cheiro delicioso. Mais delicioso que algum dos humanos à minha volta.
Comecei a virar-me para ele, de modo a poder beber do seu sangue até que mais nada restasse nele que não carne e ossos; a minha humanidade estava totalmente perdida. Lentamente, ele virou-se para mim, e viu a minha expressão feroz; sobressaltou-se, mas logo se recompôs. Comecei a inclinar-me na sua direcção, mas fui interrompida por um grito
- Lilith, não! – Era Brandie. Revirei os olhos, e um silvo escapou-me da boca. Virei-me para vê-la acompanhada por David e Jenniffer, mas nem isso trouxe a minha humanidade de volta.
Os meus colegas assistiam a tudo, aterrorizados, mas também maravilhados. Eu não queria falar, pois sabia que a minha voz seria mais ameaçadora do que alguma vez alguém ouvira, mas não me pude impedir.
- Deixem-me aproveitar a minha refeição, senão, algum de vós poderá tornar-se nela – ameacei, directamente a Brandie. Tornei a curvar-me perante Leonard, mas David pôs-me a mão no ombro. Antes que ele tivesse tempo de falar, empurrei-o até à parede para a qual ele estava de costas, onde ele embateu e caiu no chão, ainda assim consciente. Não podia permitir que se aproximasse de mim.
- Afasta-te de mim – sibilei.
Mesmo após os meus óbvios avisos, ele aproximou-se e fitou-me nos olhos.
- Lilith, não. Não vais fazer isso. Vamos embora; agora! – Disse ele, ordenando-me. Lentamente, o meu ‘eu’ humano voltou ao poder, e ele viu como os meus olhos mudavam de cor, e a minha expressão suavizava. Pisquei várias vezes os olhos, enquanto as lágrimas começaram a cair.
Ele sorria-me, tentando manter-me calma, mas eu vi nos seus olhos que ele estava tão chocado e surpreso por aquela cena como todos os outros; à excepção de Leonard.
- Perdoem-me – pedi, afastando-me do toque de David, e olhando Brandie e Jenny – eu já deveria ter-vos falado disto, mas eu acho que eu tive vergonha. Mas depois, explicar-vos-ei. Não aqui; não agora.
De seguida baixei-me para Leonard, e fitei-o nos olhos. Ele estava decepcionado; talvez por ver que eu não era humana o suficiente para ser sua amiga.
- Leo, peço-te mil perdões – ele forçou-se a sorrir-me.
- Está tudo bem, Lil. Sério. Agora vai. Por favor. Depois falamos – disse ele, tentando soar normal.
Baixei a cabeça.
- Perdoa-me.
Levantei-me, e, acompanhada por David, Jenny e Brandie, saí da escola para ir caçar. Não fomos muito longe, devido à urgência da situação, e também porque eu tinha medo que o meu lado demoníaco retornasse.
Devia-lhes uma explicação. Quando me assegurei que a sede já tinha passado, fomos para minha casa para podermos conversar.
- Bem, eu nem sei que dizer – disse-lhes, tentando acalmar o ambiente. Nenhum deles respondeu, ou mudou de expressão, portanto, desisti.
- Desde há já alguns anos que isto me acontece, não sei bem quando começou. Talvez quando combatemos todos aqueles vampiros revolucionários – expliquei, fitando David. – Só sei que agora, se me descontrolo um pouco, parece que sou possuída por uma espécie qualquer de demónio, que arruma a minha humanidade a um canto, e toma conta de todo o meu corpo, não me deixando coordená-lo. – Suspirei. – Perdoem-me pelo meu comportamento imperdoável.
- Já devias ter-me contado isso, não? – replicou David, de maxilar cerrado.
- Como já referi, penso que tive medo, ou vergonha, de o fazer.
- Lil, sabes que nunca ficaríamos chateados contigo por isto. Aconteceu. Poderia ter-nos acontecido a um de nós – replicou Brandie, com Jenny assentido com a cabeça.
Apesar de saber que não poderia ter-lhes acontecido a eles, que isto era algo que o destino tinha reservado apenas para mim, deixei-a consolar-me. Não queria levantar mais discussões e problemas, agora.
- Deveríamos voltar, agora – disse Jenny, preocupada com a possibilidade de faltar às aulas.
- Certo, vocês deveriam realmente voltar – anui, solenemente.
- Não vens? – Questionou David, confuso.
- Não. Eu não vou voltar à escola, David. Demasiada atenção, demasiada pressão.
- Certo, e o Leonard? – Questionou ele, realmente descontraído. Parecia que nem tínhamos passado 300 anos enamorados um do outro, que eu não tinha acabado com ele ontem, por causa do mesmo rapaz sobre o qual ele me questionava agora. Em vez de me magoar, como me tinha magoado de manhã, isto deu-me uma onda de esperança: esperança que David e eu ainda seríamos grandes amigos. Sorri, e ele sorriu de volta.
- Pois Lilith, tu não voltas, mas nós vamos voltar, e eu ainda estou à espera de resposta – disse-me.
- Oh, sim, o Leonard. Bem, depois daquilo que eu quase lhe fiz, não sei se quererá ver-me nos próximos 500 anos. – Toda a alegria da minha voz tinha sumido.
- Pois, não sei. Eu vou tentar falar com ele, queres? – Sugeriu Brandie, sorrindo-me.
- Não, deixa lá, B. Se quiser, ele sabe onde moro. Ele virá cá por si – respondi, sorrindo-lhe de volta.
Brandie assentiu, e veio abraçar-me.
- As aulas de latim serão uma seca, sem ti – disse-me, rindo-se. Ri-me também.
- Oh, não te preocupes, podes sempre ir para o parque de estacionamento, quando estiver a chover – sugeri, recordando-a do que fizéramos numa aula.
Jenny veio abraçar-me de seguida, apenas me dizendo ‘até logo’, e dando espaço a David para me vir abraçar também. No entanto, ele não me abraçou.
- Lil, tens a certeza? – Perguntou.
- Sim, tenho David. Isto é o melhor para nós; eu sinto-o – respondi.
- Lilith, eu estava a falar da escola – disse ele, sorrindo e revirando os olhos.
- Oh, está bem – enrubesci. – Tenho a certeza. É melhor. – Respondi, seriamente.
Ele fitou-me durante alguns segundos, e depois abraçou-me. Sorri enquanto o abraçava, e, quando ele me largou, disse-lhe:
- Não desistas do amor; ele está mesmo atrás de ti.
Ironia das ironias, Brandie tinha entrado na sala, e estava precisamente atrás dele. Ele virou-se, e, quando a viu, riu-se. Depois, ambos partiram, correndo.
E, de novo, fui deixada sozinha. No entanto, estava na minha sala, agora, e não numa sala de aula. Subi para o meu quarto, e fui deitar-me. Pensei em tudo, com o objectivo de não pensar no sucedido havia pouco tempo, e acabei por ficar a pensar em Leonard. Bem, não fiquei a pensar nele muito tempo, visto que adormeci. A não ser que sonhar com ele conte também. Estava, de novo, a sonhar com a cena em que ele me dizia que era um vampiro; no entanto, agora, quem o criara não houvera sido Vivianne, mas sim um vampiro que eu totalmente desconhecia.