Capítulo 9 - Vampiros Prateados
- Fogo, o tempo passou a voar! – Comentou Brandie, enquanto deixávamos o avião, no aeroporto de Londres.
- Bem, viemos num avião, penso que tem lógica – respondeu David, brincando. Brandie riu-se, mas, simultaneamente, soqueou-lhe o braço. Aí, já todos se riam; à excepção de mim. Eu sentia que algo não estava bem. Londres parecia demasiado negra, demasiado sombria. Inalei, à espera que isso me acalmasse, mas o cheiro a sangue apenas piorou as coisas.
- Porquê toda essa inquietude, meu amor? – Sussurrou Leonard.
- Como sabes? – Perguntei, curiosa. Se calhar a minha tentativa de disfarçar não era assim tão bem sucedida, como eu pensava.
- Consigo senti-lo. Desde ontem. Lembraste quando eu estaquei, quando estávamos a… - Leonard não terminou, deixando-me relembrar.
Enrubesci. Lembrava-me perfeitamente.
- Sim, recordo-me – respondi, confusa.
- Pronto, eu percebi nessa altura que estava a sentir aquilo que sentias, por isso é que parei. Fiquei imensamente surpreendido – declarou Leonard, para o meu grande espanto.
- E acontece só comigo, ou é com toda a gente? – Perguntei, curiosa.
- Bem, só contigo. Com eles é algo diferente. A eles, tenho que lhes tocar, descobri hoje de manhã. Por isso, ando a evitar o contacto. Mas, como contigo não posso evitá-lo… - sugeriu Leo, passando o braço pelos meus ombros. Simultaneamente, abracei-o pela cintura. – Mas não chegaste a dizer-me: o que se passa?
- Bem, é só que Londres está demasiado sombria, demasiado negra. E cheira demasiado a sangue – explanei, e, então, Leonard inalou fortemente, fazendo um trejeito.
- Hum, tens razão; cheira imenso a sangue. Mas não compreendo o que queres dizer com ‘sombria’ – expôs.
- Não consegues senti-lo? Londres está deserta, amor, e o céu está demasiado cinzento, quase negro, devo referir.
- Provavelmente, as pessoas estão dentro de casa em frente da lareira, o tempo está horrendo – constatou Leonard.
- Não, Leo. É algo mais. Os londrinos não se detêm apenas por causa de um pequeno temporal; eu já estive aqui antes, e o tempo era ainda pior, e as pessoas andavam normalmente. Para além disso, o céu parece estar a fechar-se sobre a cidade. Não é normal. Costuma ser mais amplo – expliquei, sentindo-me um pouco paranóica.
David e Brandie ouviam agora a nossa conversa, e David decidiu juntar-se ao debate.
- Lil, eu concordo com o Leo; não deve ser nada de mais – declarou, com uma camaradagem para com o meu namorado que eu desconhecia.
- Não, Dave; eu concordo com a Lil. Passa-se algo; posso ver a negritude que paira no ar, literalmente – disse Brandie. Todos olhámos para ela.
- É o meu dom. Acredita, com tanta escuridão, torna-se difícil ver – acrescentou ela, despreocupada. Assenti.
- Certo, então. Eu posso ler pensamentos, tenho umas estranhas visões do futuro, e sou mais ‘potente’ que o normal; o Leo pode sentir o que os outros sentem, embora tenha que tocar-lhes; a Brandie vê o ‘estado emocional’, ou o que lhe queiram chamar, das coisas; e tu, David, notaste alguma nova capacidade? – Sintetizei.
David baixou os olhos.
- Não – respondeu, descontente. Mas eu lembrei-me de algo que ele fazia anteriormente, apenas com vampiros, que talvez tivesse crescido. – David, manda-me fazer qualquer coisa – disse, rapidamente.
- Ah? O que se passa? – Questionou Brandie, confusa.
- Nada. Vá lá, David, quero ver uma coisa – pedi, quase suplicando. David olhava-me, confuso, mas lá se decidiu.
- Lilith, conta à Brandie aquilo que se passa – ordenou, no seu tom irredutível.
- Eu penso que o poder de David é o hipnotismo – declarei, de olhos esbugalhados, num tom monótono e vazio de sentimentos. De seguida, pisquei fortemente os olhos, focando-os, e sorri a David.
- Agora só falta saber se os humanos estão sujeitos ao teu hipnotismo… - constatei, num tom normal.
- Como é que sabias disto? – Questionou Leonard, espantado pelo dom de David.
- Bem, ele fazia o mesmo antes de encontrar Brandie, se bem que não fosse tão poderoso. Eu suspeitei que tivesse mantido essa característica, fortalecendo-a. E não me enganei, pelo que parece – sorri, calmamente. À minha frente, encontravam-se três vampiros congelados, com a boca aberta de espanto. Revoltei-me um pouco.
- Oh, vá lá! Não é nada do outro mundo – visto que eles não se mexeram, recorri a outro argumento. – A segurança do Leonard, e, muito provavelmente, do resto de nós que se envolver contra os vampiros negros, está nas nossas mãos, então, toca a andar! – Ordenei, um pouco exaltada.
Alarmados pelo meu argumento, todos se moveram. Leonard veio de novo para o meu lado, abraçando-me, enquanto David e Brandie se abraçavam. Seguimos o nosso rumo.
Num ápice, já estávamos no local de reunião do conselho de vampiros prateados. Eu já tinha estado lá anteriormente, com David. Apesar que, naquela altura, ele desconhecia que eu própria era uma vampira prateada.
Nem por sombras eu tinha renunciado ao meu cargo, apenas tinha pedido uma condição especial: apenas me reuniria com eles em caso de emergência. Por isso, eles já deviam saber que algo se passava, neste momento, pois Sadie veio abrir-nos a porta, e olhou à volta, alarmada.
- Sadie, não é aqui – tranquilizei-a. Ela fitou-me, e, de seguida, puxou-nos, literalmente, para dentro do edifício.
- Aí é que te enganas, Lilith. Só estamos seguros aqui – disse ela, mais calma. Depois, abraçou-me. – Tive saudades tuas, irmã.
- Eu também, Sadie, eu também – sorri, afastando-me um pouco. – Continuas linda, como sempre – reparei, olhando desde os seus brilhantes cabelos negros, que pareciam duas cascatas de petróleo, passando pelas duas bolas de água que me fitavam, atentas, observando a sua túnica prateada brilhante, muito feminina.
Ela riu-se, e observou-me também.
- Como se nós mudássemos alguma coisa, Lil – observou.
Bem, agora, estava na hora das apresentações.
- Sadie, estes são o David e o Leonard, e ela é a Brandie. O David é o meu “irmão mais velho”, o Leonard é o meu parceiro – e sorri, ao dizer isto, - e a Brandie é, sem dúvida, a minha melhor amiga.
- Muito prazer – disse Sadie, hospitaleira. – Posso saber o que te trouxe cá, irmã? O que te levou a revelar-lhes que fazias parte do nosso tão honrado conselho? – Eu tossi, tentando impedi-la, mas não consegui. Então, baixei os olhos, corando.
- Hum, eles não sabiam, Sadie – levantei a cabeça. Eles olhavam-me, circunspectos. – Mas é verdade, eu faço parte do conselho de vampiros prateados – de seguida, corri ao vestiário e troquei a minha roupa pela túnica prateado que me pertencia. Soltei o cabelo, e voltei para os meus amigos.
- Lil, tu não ias dizer-nos? – Questionou Brandie, admirada.
- Claro que ia, B. mas estava com a cabeça demasiado ocupada para pensar nisso. Perdoem-me, por favor – respondi-lhe.
Eles assentiram, e até me sorriram. Leonard veio abraçar-me.
- Essa túnica fica-te maravilhosamente – sussurrou, fazendo-me corar. Suspirei.
- Bem, estávamos todos à tua espera – disse Sadie, fazendo Leonard largar-me, dando-me apenas a mão. – Já sabíamos que vinhas, por isso, reunimo-nos, à tua espera.
- Vamos, então. Não os façamos esperar – declarei, movendo-me num passo fluído até à grande sala de reunião.
Mal entramos na sala de abóbada de aresta dourada, iluminada com luz natural, e com a grande mesa de ouro maciço no centro, rodeada pelos quatro vampiros que, para além de mim e de Sadie, eram parte do conselho de vampiros prateados, os meus amigos estacaram. Puxei-os gentilmente, e eles seguiram-me. Parei em frente à mesa.
- Adelpho, Cassidy, Melvino e Shirlei – cumprimentei, fazendo uma ligeira vénia.
- Lilith – replicaram os quatro, retribuindo a vénia.
- O que se passa? – Questionou Cassidy, erguendo ligeiramente a sobrancelha delicada. Observei os deus inquiridores olhos lilases.
- Vampiros negros, já me encontraram – declarei, baixando involuntariamente o tom.
- Sentem-se para falarmos sobre isso, caros amigos – disse Shirlei, num tom melódico e afectado. Seguimos o seu conselho, e ocupamos todas as cadeiras livres.
- Como é que eles te encontraram? – Perguntou Adelpho, alarmado.
- Não sei como, mas sei qual é o seu plano para me apanharem – declarei, solenemente.
- Explica – ordenou Melvino, no seu típico tom de voz grave.
- Um deles, um tal de Russell, está a tornar uma das minhas companheiras de casa num deles. Depois pretendo apanhar o meu parceiro – e apontei para Leo, – e transformá-lo numa refeição – disse, rangendo os dentes. – Eles sabem que o instinto de luta leva a melhor, nessas situações – acrescentei.
O conselho permaneceu em silêncio. Olhavam entre si, e, por vezes, fitavam Leonard. Eu estava tentada a perscrutar a mente deles, mas contive-me. Por fim, Sadie falou.
- Querida, não foi só a ti que descobriram. Eles querem destruir-nos, a todos. Já reparaste em Londres? Eles andam aí. – Olhei para Leo e David, com um olhar um pouco convencido. Só depois é que me dei conta do que ela tinha dito.
- Eles andam aí? Eles já sabem que estamos aqui, portanto – eu estava a pensar alto. – Temos que arranjar um plano. E um muito bom.
Olhei à volta. Todos se mantinham paralisados, a olharem-me, como se eu fosse esquizofrénica. Não gostei. Semicerrei os olhos, mas logo tive uma ideia, o que me fez abri-los mais do que alguma vez poderia.
- Já sei – declarei, calmamente. – Vamos todos para casa, e não fazemos nada – o Conselho e os meus amigos olharam-me, alarmados. Sorri-lhes. – Agora, vou dormir, até logo. Ninguém me acorde, por favor. Temos uma viagem cansativa pela frente – declarei.
Antes que me começassem a fazer perguntas, corri para o quarto que era suposto ser meu, e deitei-me. Felizmente, adormeci num ápice.
Devia ir já a meio do sono quando a visão voltou. Era exactamente igual ao anterior. Chegou a parte que eu esperava.
***
Eu sentia algo a chegar, e, desta vez, chegou mesmo.
Eu quase podia tocar-lhe. Eu via o poder que se estava a formar à minha volta, e sabia que, provavelmente, eles podiam vê-lo.
- Venez à moi, le pouvoir. Vient me force. Remplissez-moi de ta lumière, et je serai votre porte. Viens à moi! – Cantava eu, na minha língua de origem.
Mal acabei o cântico, o poder que eu via à minha volta entrou-me no corpo, e eu senti o meu corpo transformar-se num belo tigre das neves, enquanto um rugido se formava no meu peito. Mal me vi sob as quatro patas, rugi ferozmente.
- Larguem-no – ordenei, na voz que reflectia o meu ser interior. Era poderosa, e não tinha saído dos meus lábios, com toda a certeza. Eles continuavam cerrados, para não me atirar logo a eles. Eles olhavam-me, boquiabertos. Sorri.
Atirei-me a Russell, ainda com a esperança que quando ele desaparecesse, Jenny voltasse ao normal. Conscientemente, eu não tinha a mais pálida ideia do que fazer, mas o meu instinto tratou de tudo. Comecei a devorá-lo, literalmente, o que deixava o meu consciente um pouco enjoado, mas o meu subconsciente estava deliciado, pelo que me concentrei apenas no meu instinto animal. Acabei rapidamente a minha refeição. Irónico. «Quem é a refeição agora, hein?» pensei, sarcasticamente.
Virei-me para Jenny, mas, quando reparei, ela já não estava lá. Tinha desaparecido. Vi a janela aberta, e suspirei.
- Qu'at-on fait peut être inversée, en dépit d'être toujours dans mon âme – disse a voz, inteirando-se da minha vontade. Depressa me tornei vampira, de novo. Apressei-me para junto de Leonard, e levei o braço à sua boca, mesmo antes de o cortar; ele próprio tratou disso. Ele estava muito débil, mas rapidamente melhorou.
***
Acordei sobressaltada. Continuava sozinha. Pelo menos já sabia como derrotar o Russell. O problema era mesmo como os derrotar a todos. Pensei um pouco.
- Já sei! – exclamei, para mim.
Saí do quarto, e fui para a sala das reuniões.
Os meus amigos tinham-se mantido calados durante todo o conselho, mas, pelos vistos, quando eu saí, deu motivo de conversa. Entrei, e todos se calaram. Leonard veio ter comigo.
- Lilith, talvez devêssemos falar em particular – disse ele, em voz baixa, e alarmado. Fitei-o nos olhos.
- Meu amor, vem para ali que eu explico-te – disse, tentando alcançar o seu braço; no entanto, ele afastou-se do meu toque. Olhei-o magoada, e ele acabou por seguir-me, afastado por cerca de meio metro. Fui para o meu lugar, mas fiquei de pé atrás da cadeira. Fitei cada rosto que rodeava a mesa, e todos me olhavam, cautelosos. Lágrimas desceram pelo meu rosto, mas eu travei-as. Precisava falar-lhes.
- Por favor, eu sei que aquilo que disse há pouco deixou-vos transtornados, mas tem uma razão de ser. – Eles continuavam com o olhar cauteloso. Não consegui controlar as lágrimas. – Oiçam, eu vou explicar-vos tudo – declarei, com uma voz pastosa, devido às lágrimas. – Bom, eu disse aquela barbaridade, porque, assim, a visão tornaria a ser real, e eu poderia segui-la até ao fim. Da última vez que a tive, fui acordada pela parelha demoníaca que nela participava, pelo que não a tinha visto completa. Agora que já a vi completa, já sei como derrotá-los – eles estavam perplexos, e agora, apenas a incredulidade dominava o seu olhar. Bastou para acalmar as lágrimas.
Leonard fitava-me, arrependido por aquilo que me houvera feito. Sorri-lhe ligeiramente; apesar de aquilo me ter magoado intensamente, eu compreendia. Aquilo que houvera dito não tinha sido fácil para ele ouvir. Estendeu-me a mão. Enquanto eu a agarrava, Shirlei falou.
- Então, como pretendes que os derrotemos? – Questionou, mais interessado.
- Não somos nós, sou apenas eu. Apenas eu tenho… - ia terminar a frase, mas o meu instinto avisou-me que eu não era única. – Bem, reflectindo correctamente, penso que todos temos a mesma capacidade. Apenas preciso saber a língua materna de cada um de vós – declarei. – Incluindo a vossa – constatei, virando-me para os meus amigos. – Todo o vampiro que se senta a esta mesa e fala, torna-se, automaticamente, num vampiro prateado. Noutra ocasião, teríamos uma enorme cerimónia, mas, com todo este perigo à solta, nada mais posso dizer, se não: Bem-Vindos ao Conselho! – Sorri para cada um deles, e eles sorriram-me de volta. Depois de tratarmos dos vampiros negros, trataríamos da sua cerimónia solene; eles mereciam.
- Língua materna?! – Perguntou Cassidy, circunspecta.
- Por favor, confiem em mim. Escrevam num papel a seguinte frase, na vossa língua materna: ‘Vem a mim, poder. Vem a mim, força. Enchei-me da vossa luz e eu serei o vosso portador.’ As meninas escrevem no feminino, claro. De seguida, escrevam esta: ‘O que foi feito pode ser invertido, apesar de estar sempre na minha alma.’ – declarei. Vi-os escreverem, e, quando me certifiquei que já todos tinham terminado, suspirei. – Agora, digam isso em voz alta, e, não se exaltem, por favor – pedi, sorrindo ligeiramente.
Foi então que começou. Eu vi-os, aos poucos e poucos, a transformarem-se. Enquanto que eu tinha assumido a forma de um poderoso tigre, eles assumiam outras formas. Leo era um gracioso leão, o que me deixou babada; Brandie era uma temerária pantera, David era um grandioso urso-pardo, Cassidy uma raposa destemida, Shirley um estruturado lobo, Adolphe era um Javali terrífico, Sadie era uma perigosa chita, e Melvino um belo, mas assustador coiote.
Todos me olhavam, assustados, mas, ao mesmo tempo, maravilhados com tal descoberta. Nesse momento, decidi juntar-me a eles. Pronunciei as palavras da minha visão, e, no mesmo instante em que terminei, já era um maravilhoso tigre das neves. Leonard, não conseguindo conter-se, veio para o meu lado. Pensei no que queria dizer, e logo a minha voz interior falou:
- Agora, para se metamorfosearem de novo, recitem a segunda frase que vos dei, por favor – assim, cumpri também a minha própria ordem, e transformei-me. Um segundo mais tarde, já estávamos todos na nossa forma humana. Eles olhavam-me, maravilhados. Principalmente Leonard. Ele continuava ao meu lado, e eu queria muito tê-lo só para mim, neste momento. Nem parecia que tinha sido apenas ontem à noite que nós… hum, que nós tínhamos dormido juntos. Sorri, perante a lembrança, e, como vi que os olhos de Leonard brilhavam de desejo, perscrutei-lhe a mente, e vi que os pensamentos dele haviam tomado o mesmo rumo dos meus. Sorri mais largamente.
- Bem, eu e a Li vamos para o nosso quarto – declarou Leonard, enquanto me abraçava pela cintura.
- Sim, estejam à vontade, todos nós vamos fazer o mesmo – respondeu educadamente Shirlei, dando um olhar de permissão discreto a Leonard, mas como eu já esperava que ele o fizesse, vi-o. Revirei os olhos.
- Shirlei… - suspirei, acusatoriamente. Ele sorriu-me, embaraçado, mas logo de seguida deixou a sala, seguindo Sadie.
Leonard puxou-me na direcção do meu quarto, e, mal entrámos, trancou a porta, e puxou-me para os seus braços, beijando-me fervorosamente. Mal tirou os seus lábios dos meus, respirando dificilmente, acariciou-me a face.
- Se tu soubesses a tentação que agora sinto… hum, acho que perderias a cabeça – suspirou o meu amor, derrotado.
- Hum, Leo, não quero que penses que sou muito possessiva, mas… eu estou a ‘ver’ a tentação pela qual estás a passar. Só não entendo porque te controlas assim, amor – declarei, confusa.
- Hum – disse Leo, corando. – É só que eu não gosto da ideia que eles possam estar a ouvir, ou algo assim – sentenciou, finalmente, o seu medo. Olhei-o, um pouco divertida.
- Amor, eles são muito inteligentes e respeitosos nesse aspecto. Puseram paredes que não permitem o som passar, assim como as portas. Está tudo bem, não te preocupes – sussurrei, tentando seduzi-lo. Pelos vistos, surtiu efeito.
- Nesse caso… - e, de repente, as nossas bocas tinham outras ocupações mais importantes.
Acordamos era já um novo dia. Não queríamos levantar-nos, mas tivemos que o fazer. Na noite anterior, tínhamos combinado com o conselho que nos encontraríamos pela manhã, para enfrentar o nosso inimigo. Peguei maquinalmente no telemóvel, e vi que tinha uma mensagem nova.
Olá, Lilith. Onde andas? Quando cheguei tu e a Brandie estavam desaparecidas, deixaram-me preocupada.
Responde rápido, estou a morrer para saber de ti. Beijinho, adoro-te miúda.
Jenny
As lágrimas vieram-me aos olhos. Como seria eu capaz de destruir Jenny? Leonard tinha visto a mensagem, e sentido o meu estado de espírito, pelo que me abraçou instintivamente. Foi quando estávamos assim que entendi porque tinha que destruir Jenny. Acima de qualquer pena ou amizade que eu pudesse nutrir por Jenny, aquilo que sentia por Leonard era muito mais forte. Foi então que o larguei, e escrevi a resposta.
Oi. Estou em Londres, e a Brandie está comigo, assim como o Leonard e o David. Se sentires necessidade, vem ter connosco, e traz o Russell.
Fica bem.
Lilith
De seguida, levantei-me, e arrastei Leonard comigo. Agora, tudo o que eu queria era puxá-lo de novo para a cama, mas sabia bem que não podia fazê-lo. A muito custo, lutei a tentação, e vesti-me. Vi como Leonard se vestia, contra sua vontade, o que me fez rir.
- Amor, isto vai ser rápido. Depois, temos todo o tempo do mundo para nós – sugeri, sorrindo. Aproximei-me dele, e, mesmo quando íamos beijar-nos…
- Toca a sair daí, meninos! Está na hora da reunião! – Gritou Brandie, do lado de fora da porta. Semicerrei os olhos.
Leonard puxou-me na mesma para si, e beijou-me, como se esta fosse a última vez que me beijaria. Apesar de ter sido um dos beijos mais apaixonados que ele já me dera, preocupou-me imenso.
Era mais do que óbvio que Leonard não tinha tanta esperança quanto eu tinha de que iríamos vencer esta batalha, sem que nenhum de nós perecesse. Suspirei e abracei-o, quando acabámos de nos beijar. Então, um estrondo deu-se, e a porta do meu quarto caiu. Olhámos, preparados para qualquer coisa, mas era apenas Brandie, que nos fitava, ameaçadora. De repente, a sua expressão mudou.
- Uf, isto é uma mudança aceitável. É preferível ver rosa do que ver negro. Obrigada, Casal Amor – disse ela, sorrindo. Era impossível não lhe sorrir de volta. Leonard correu até ela, e desarrumou-lhe o cabelo, para vir outra vez para me abraçar.
- Vamos lá, antes que ela deite mais alguma coisa abaixo. Esta pantera é forte – referi, rindo-me. Brandie e Leonard acompanharam-me, e eu ouvi o familiar riso de David da parede que ladeava a porta pela esquerda.
- Vamos, então – concordou Leonard, enquanto me largava, pegando-me apenas na mão. Caminhamos juntos até à sala de reuniões, onde nos sentamos, lado a lado.
Já todos estavam lá, o que me fez sentir envergonhada. Pelo que pude ver, Leonard sentia o mesmo.
- Lilith, diz-nos, achas que eles virão muito rápido? – Questionou Melvino, depositando em mim uma confiança que eu achei exagerada.
- Bem, pela mensagem que recebi há pouco, eles só devem atacar daqui a sete horas e meia – respondi, casualmente.
- Mensagem? Que mensagem? – Questionou Brandie, alarmada.
- Hum, a Jenny mandou-me mensagem, a dizer que estava ‘morta para saber de mim’ – declarei, entre dentes. – Eu disse-lhe que estávamos em Londres, e para ela vir encontrar-se connosco, se quisesse, mais o seu querido namorado.
O conselho olhava-me, em busca de algum sinal de amargura, como o que se expressava na face de Brandie, através de lágrimas; mas eu já tinha esquecido essa parte, tudo o que agora me importava era salvar Leonard.
- Muito bem, então. Vamos discutir a estratégia – declarou Shirlei, de um modo um pouco brusco.
O conselho, normalmente muito organizado, começou a discutir as opções simultaneamente, pelo que eu não entendia nada, tal como Leo. Entreolhámo-nos.
- PAREM! – Gritei, deixando a sala num silêncio constrangedor. – Agora, com calma, por favor. Shirlei.
- Eu penso que devíamos ir logo na nossa forma animal, assim não perdíamos tempo – declarou.
Os membros mais velhos do conselho concordaram com ele, excepto eu.
- Eu discordo – proclamou-se David. – Eles não iriam dar-nos crédito, achariam que éramos apenas um grupo de animais selvagens perdidos por aí. Eles não têm inteligência suficiente para entender que os animais selvagens não se perdem numa cidade por acaso – disse, troçando.
- Inteligência? – Perguntou Brandie, atenta, mas muito confusa.
- Bem, eu e o David já temos um longo passado bélico com os vampiros negros, e, ao longo do tempo, pudemos entender que eles simplesmente… emburrecem, à falta de melhor vocábulo. Eles estão tão obcecados com a morte, que o seu cérebro se foca simplesmente nisso, e todas as suas lógicas, razões e aprendizagens desaparecem – expliquei.
- Então era por isso que a Jenny estava cada vez pior nas aulas – declarou Brandie, já mais calma.
- Sim, devido a isso – declarei, expirando.
Passamos as restantes seis horas e 42 minutos a falar de opções de ataque, e de técnicas bélicas adquiridas ao longo dos tempos. Eu e David contribuíamos muito, visto que o nosso passado era imensamente vasto nesse campo.
Finalmente, a hora chegou, e Brandie sentiu-o.
- Está na hora do espetáculo, malta.